Há dois anos, o Soccer City recebia a final da Copa da África do Sul. Hoje vive cada vez menos de futebol - um jeito de cobrir um buraco financeiro de cerca de 1,8 milhão de dólares por mês
Por Pedro Proença, da PLACAR
Diane e David casaram-se em março deste ano. Ainda vestida de noiva, Diane acompanhou o agora marido, de terno e camisa do Liverpool, em uma sessão de fotos no Soccer City, o estádio de Johannesburgo que recebeu a abertura e a final da última Copa do Mundo de 2010. Como eles, outros 24 casais procuraram a arena para seus álbuns de casamento no último ano.
Seria uma linda história de amor, não fosse esse um tipo de uso cada vez mais frequente do estádio que recebeu 84 490 pessoas no jogo que decidiu a última Copa, entre Espanha e Holanda. Quando acabou o Mundial, as autoridades sul-africanas afirmavam que o Soccer City não se tornaria um elefante branco, que receberia jogos das seleções de rúgbi e futebol. Não foi o que aconteceu.
Desde então, a seleção nacional de futebol jogou apenas uma partida, um amistoso contra Gana, em 11 de agosto de 2010. A Safa, a associação sul-africana de futebol, se justifica dizendo que deve distribuir os jogos dos Bafana Bafana pelos demais estádios da África do Sul. Na última temporada, apenas dez jogos da liga sul-africana foram realizados no estádio. "Não temos na África do Sul eventos esportivos que justifiquem estádios desse tamanho. Por isso, desde 2010, eles vêm sendo subaproveitados", diz o ativista político Dale McKinley, coautor do livro South Africa's World Cup - A Legacy for Whom? ("Copa da África do Sul - Um legado para quem?", em tradução livre). Mesmo a associação sul-africana de futebol reconhece o baixo uso da arena. "Os clubes ficam reticentes em usar um estádio desse tamanho", afirma Dominic Chimhavi, assessor de comunicação da entidade.
Havia a promessa de que o Soccer City, também conhecido como FNB Stadium, seria casa do Kaizer Chiefs, um dos dois grandes clubes de Johannesburgo - o outro é o Orlando Pirates, cujo estádio, o Ellis Park, também recebeu jogos da Copa. Nem sempre a preferência foi seguida pelos Chiefs. Na última liga sul-africana, o clube realizou apenas dez partidas no estádio. O público variou de 15000 a 20000 torcedores - menos de um quarto da capacidade do Soccer City. Apenas o Dérbi de Soweto, entre Chiefs e Pirates, foi capaz de enchê-lo (leia no final da página).
Nos outros jogos, os Chiefs foram seduzidos pela proposta do governo de Polokwane, a cerca de 300 quilômetros ao norte de Johannesburgo. Eles ofereceram taxas de uso menores e benefícios como transporte para que o clube de Johannesburgo mandasse suas partidas no estádio Peter Mokaba. Na última temporada, jogou oito vezes lá.
O Ellis Park não sofre do mesmo mal. Casa do Orlando Pirates, atual campeão sul-africano, tem a favor as dimensões menores - a lotação é de 59000 torcedores. "Mesmo com o Soccer City tendo maior capacidade, os Pirates preferem mandar seus jogos em seu estádio", afirma o brasileiro Júlio César Leal, que treinou a equipe no ano passado. "Mas o preço do ingresso, na faixa de 10 dólares, ainda é alto para os padrões sul-africanos."
O preço pode explicar, em parte, a baixa média de público do campeonato. Por mais que as autoridades sul-africanas afirmem que o interesse por futebol cresceu depois da Copa, a média de público dos estádios desmente. As de 2011/12 (7120 por jogo) e de 2010/11 (3829 pagantes, menor que os 5662 torcedores da série B brasileira) são inferiores à de 2009/10, a temporada anterior ao Mundial, quando cada jogo recebia em média 7639 torcedores.
ALÉM DO FUTEBOL
Quando 94713 pessoas assistiram ao duelo entre as seleções de rúgbi da África do Sul e da Nova Zelândia, em agosto de 2010, ficou a impressão de que o estádio não seria subaproveitado, pois não ficaria restrito ao futebol. Ilusão. Foi a única vez que a bola oval rolou no estádio, embora exista a previsão de os amistosos entre as duas seleções acontecerem regularmente uma vez por ano até 2015.
Mesmo os clubes locais de rúgbi evitam o Soccer City. O Golden Lions, equipe de Johannesburgo, prefere mandar seus jogos no Ellis Park (no qual a equipe já jogava antes do Mundial). Havia um acordo verbal para eles se mudarem para o Soccer City depois do fim da Copa, mas isso nunca se concretizou. "Não há sentido em pagar aluguel e jogar em um estádio de futebol, quando eles têm um de rúgbi para jogar e no qual não precisam pagar nada", afirma Duane Heath, consultora da União Sul-africana de Rúgbi.
O estádio, então, precisou receber outros eventos que justificassem sua existência. Em 2011, a banda irlandesa U2 arrastou 94232 pessoas ao Soccer City. Coldplay (cerca de 62000) e Kings of Leon (52000 pessoas) também tocaram na arena, que recebe em 30 de novembro uma apresentação de Lady Gaga. Nem só a música pop procurou o colosso de concreto. Em março de 2011, um evento religioso, liderado pelo pastor nigeriano Chris Oyakhilome, que comanda cultos televisivos transmitidos para grande parte da África, reuniu 80000 pessoas.
Segundo o diretor de eventos do Soccer City, Jean Blignaut, o estádio também recebe festas, encontros políticos e cerimônias, como as sessões de fotos do casamento de Diane e David. Por semana, cerca de 20 visitas guiadas são realizadas no estádio. Blignaut não divulga números, mas defende que a arena é, sim, lucrativa, informação contestada pelo ativista McKinley. Segundo ele, a realização de poucos eventos de grande porte torna duvidoso o potencial de fazer dinheiro com o estádio. Ele estima que a arena dê um prejuízo de 1,8 milhão de dólares por mês aos cofres públicos, considerando os custos de manutenção.
O calvário do Soccer City deve continuar. Na Copa Africana de Nações, em 2013, a arena vai receber apenas a abertura e a final. A prefeitura de Johannesburgo considera que seria muito oneroso abrigar mais duelos além desses. O Kaizer Chiefs ainda estuda propostas de outros governos para saber onde é mais rentável mandar seus jogos. No horizonte africano, a impressão que paira sobre o Soccer City é a de um casamento que não deu certo.
UM PONTO VERDE DESOLADOR
O Green Point, na Cidade do Cabo, custou em torno de 1 bilhão de reais. Seu custo de manutenção é de 15 milhões de reais por ano. Não é usado pelos times de rúgbi nem de futebol locais. E não receberá um jogo da Copa Africana de Nações 2013 - a prefeitura não concordou com as condições e custos.
Em junho, o estádio foi palco de um torneio de seleções sub-20. "Mas isso não é suficiente para tornar o estádio viável. Não há planos ou perspectivas animadoras", diz o ativista Dale McKinley. A demolição do estádio chegou a ser cogitada.
O Free State (Bloemfontein), o Loftus Versfeld (Pretória), o Mbombela (Nelspruit) e o Nelson Mandela Bay (Port Elizabeth), além de abrigarem partidas de futebol, recebem jogos de rúgbi. "Mas são só dois ou três por mês", diz Duane Heath, da União Sul-Africana de Rúgbi.
Os estádios Peter Mokaba (Polowwane), Moses Mabhida (Durban) e Royal Bafokeng (Rustemburgo), juntos, receberam 46 partidas na temporada 2011/12.
E há grandes distorções entre o praticado em uma arena e o que acontece no entorno. Como em Nelspruit, onde o estádio é irrigado diariamente, enquanto a população que vive nas cercanias do campo não dispõe de água potável.
SÓ O DÉRBI DE SOWETO SALVA
Há um alento para os que ainda acreditam na viabilidade do Soccer City. Desde a abertura do estádio, em 2010, ele virou o palco do mais tradicional clássico sul-africano, o Dérbi de Soweto, entre Kaizer Chiefs e Orlando Pirates. E o público praticamente dobrou.
Na última partida entre eles pela liga sul-africana, em 17 de março, o Soccer City recebeu 87171 torcedores. "Quando eles jogavam no Ellis Park, o público era de cerca de 50000 pessoas. Agora, está quase sempre lotado", diz Mogmad Allie, editor da revista sul-africana Soccer Sowetan. O clássico continuará a ser disputado no palco da final da Copa pelas próximas temporadas.
A rivalidade é recente: os Chiefs se formaram graças a uma dissidência de alguns jogadores do Orlando Pirates em 1969. "Diria que o Pirates é mais como um Flamengo e o Chiefs, um Fluminense", diz o brasileiro Julio César Leal.
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