Sob pressão, Lucas mira título antes de ir para a Europa

Jogador diz que quer deixar uma história positiva no São Paulo antes de deixar a equipe

Por Redação PLACAR 29/06/2012, às 12h15

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foto_lucas_batti / Crédito: Foto: Alexandre Battibugli

Jogador diz que quer deixar uma história positiva no São Paulo antes de deixar a equipe

Por Breiller Pires da PLACAR

Em menos de dois anos, ele deixou de ser Marcelinho, virou Lucas, saiu do meio-campo para a ponta e se tornou símbolo da geração brasileira para a Copa do Mundo de 2014. Em abril de 2011, o jovem são-paulino, que acabara de renovar contrato e passara a valer 80 milhões de euros, traçava planos audaciosos. "Quero ser o melhor do mundo", dizia.

Hoje, aos 19 anos, ele mantém sua obsessão, mas ciente de que precisa ligar a turbina para voos mais ambiciosos. "É quase impossível um jogador conseguir se tornar o melhor do mundo jogando no Brasil. É preciso estar na Europa, no centro do futebol mundial."

Em entrevista à PLACAR, antes do anúncio da demissão de Emerson Leão, Lucas criticou a rigidez tática do ex-comandante. Além das rusgas com o antigo treinador, o camisa 7 são-paulino admite a pressão por títulos no clube e projeta bom desempenho com a seleção na Olimpíada de Londres para consolidar sua fama no mercado europeu.

Nesses dois anos no time principal do São Paulo, em que aspecto você mais evoluiu?

Eu estou mais maduro, ganhei experiência. Evoluí em saber a hora certa de trabalhar a bola ou partir para cima, o momento de dar uma arrancada, um passe ou chutar a gol. Na base, eu só queria correr e driblar.

Como funciona essa tomada de decisão durante o jogo? Sai no improviso ou você já sobe para o campo com alguma jogada na cabeça?

As primeiras bolas do jogo eu procuro tocar para ganhar confiança. Quando eu esquento, aí é hora de dar minhas arrancadas. Parto pra cima, em direção ao gol, que é o que eu sei fazer de melhor. Se você dá um pisão de uma vez no acelerador, vai estragar o carro e ferrar o motor. Com o jogador é a mesma coisa. Esquentar primeiro para depois acelerar.

No ano passado, você disse que seu sonho é ser o melhor do mundo. Assim como o Neymar, seu objetivo é alcançar o topo atuando no Brasil?

É quase impossível um jogador conseguir se tornar o melhor do mundo jogando no Brasil. O Neymar conseguiu estar entre os melhores do mundo sem sair do Santos. Mas, para ser o primeiro, é preciso estar na Europa, no centro do futebol mundial, disputando os melhores campeonatos. Muitas pessoas lá fora nem conhecem a gente. Quando fui jogar com a seleção em Londres, todos ficaram surpresos com meu futebol. Ninguém me conhecia ainda.

Você encara a Olimpíada como vitrine, principalmente para os grandes clubes da Inglaterra?

Seu eu for bem na Olimpíada, o mundo inteiro vai estar de olho. Mais importante que a vitrine, eu quero conquistar, eu quero fazer história como parte da geração que trouxe o primeiro ouro olímpico do nosso futebol.

Há pouco tempo você reconheceu que ainda é cedo para te chamarem de craque e que o Neymar amadureceu mais rápido...

O que mais ajudou o Neymar nesse amadurecimento foi o Santos, que é uma equipe pronta, vencedora. Comigo, no São Paulo, não foi dessa maneira. Eu subi para o profissional numa fase ruim do time, que tinha acabado de ser eliminado da Libertadores e estava em crise. A torcida pressionando porque não ganha título... Foi um processo complicado. Mas logo eu vou conquistar um título e, também, o status de craque.

Falta suporte do São Paulo nos momentos de instabilidade?

Isso é normal. No São Paulo, tudo tem uma dimensão muito maior, pela grandeza do clube e a falta de títulos. Mas respaldo nunca faltou. O São Paulo sempre me deu as melhores condições para trabalhar.

O Brasileirão é a chance que restou para recuperar a confiança da torcida. O time tem condições de buscar o título, mesmo com todas as turbulências que já atravessou durante este ano?

A pressão pra gente ganhar o Brasileiro é grande. O São Paulo conquistou três campeonatos seguidos e, de repente, está há quase quatro anos sem ganhar nada. Nossa responsabilidade aumentou. Temos de trabalhar bastante para não deixar a pressão atrapalhar.

A cobrança de torcedores e até de dirigentes do clube em cima de você tornam desgastante sua afirmação como craque?

Dizem que eu sou fominha, isso ou aquilo. Mas, se a crítica é verdadeira, procuro absorver e aprender. Se me chamam de craque, beleza, obrigado. Se não me acha craque, para mim não faz diferença.

Você já teve propostas do exterior, e o São Paulo resiste em aumentar seu salário. Até quando vai resistir às ofertas de fora?

Estou feliz no São Paulo. Foi o clube que me projetou. Se eu sou conhecido nas ruas, devo isso ao São Paulo. Sou muito jovem e a cabeça fica a mil com essas especulações. Mas ainda não é o momento de tentar carreira lá fora. Quero conquistar um título aqui, deixar uma história positiva no São Paulo.

E se as conquistas não vierem?

Não tenho um prazo específico. Minha meta esse ano é conquistar um título com o São Paulo e ganhar a Olimpíada com a seleção. Depois da Olimpíada, aí a gente senta para conversar sobre o meu futuro e vê o que acontece. Se tiver uma proposta boa, vamos ver se vale a pena sair.

Você chegou a desabafar no Twitter após o jogo contra o Independente-PA pela Copa do Brasil. Menos de uma semana depois, o Leão criticou sua apatia em campo diante da Portuguesa, pelo Paulista...

Faltou diálogo naquele momento. Eu fiquei chateado por isso. Tem coisas que devem ser resolvidas internamente. Roupa suja se lava em casa. Foi uma coisa muito pequena que tomou uma repercussão gigante. Ele [Leão] deveria ter chegado e conversado comigo. Não precisava expor para a imprensa.

Concordou com a crítica do Leão, da torcida e de alguns companheiros ao seu individualismo?

Eu entendi numa boa. Mas tudo que eu faço é para ajudar o São Paulo. As jogadas que prendo e perco são sempre em direção ao gol, e não para fazer gracinha. Se eu toco todas as bolas para alguém que está livre e o time não ganha, sobra pra mim. "Pô, você só toca de lado, isso qualquer um faz." Se pego a bola e parto para cima, sou fominha.

O estilo disciplinador do Leão tirou um pouco da naturalidade do seu jogo?

Às vezes eu me sinto preso no lado direito. O Leão não gosta que eu saia, pede para que eu fique na ponta. Gosto de jogar livre, rodar pelo meio, ir para a esquerda, buscar jogo. Mas tenho que respeitar o treinador. É um cara durão, rígido, dá a última palavra em tudo, mas é honesto. Não tem trairagem com jogador.

Em qual posição você se sente mais à vontade?

Eu não gosto que me chamem de atacante. Atacante é um fazedor de gols. Meu negócio é arrancar e servir os companheiros. Como atacante, as pessoas vão me cobrar gols. Não é minha especialidade. Na base, eu jogava centralizado, camisa 10 mesmo. No profissional, fui para a direita. Mas eu gosto de ficar livre, rodar pelo meio e buscar jogo. Sem prisão tática. O Neymar, do meio para frente, gira pelos dois lados. Jogador leve, que tem o drible, não pode ficar preso em um lado só.

E na seleção, você se vê como camisa 10?

Eu não posso buscar jogo atrás do meio. A bola tem que chegar a mim. Jogar com um meia de ligação, como o Ganso, seria a parceria ideal pro meu futebol.

Por que você ainda não se firmou na seleção principal?

Seleção é outra história. Não é como jogar no clube. É tudo diferente. O Mano [Menezes] deixa a gente à vontade, mas cobra bastante disciplina tática.

Você convive com diversas comparações ao Neymar, além do fato de terem o mesmo empresário e praticamente a mesma idade. A insistência nesse paralelo lhe incomoda?

Eu não sou o Neymar, eu sou o Lucas. Meu jogo é diferente, meu estilo é diferente. Não gosto da comparação. O Neymar atua mais perto da área, faz bem mais gols do que eu e joga em uma equipe madura, que é o Santos. Eu sou jogador de arrancada, mais força física. E a equipe do São Paulo ainda está em formação. As pessoas acham que eu vou fazer o que o Neymar faz. Minha responsabilidade aumenta muito.

O Wagner Ribeiro [empresário] chegou a te comparar a uma Ferrari. Essa comparação faz sentido?

Ferrari corre bastante, né? Então tá valendo.

Marcado em: Lucas (Marcelinho)

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