PLACAR acionou os universitários, cruzou todos os testes e revela agora qual time tem a melhor "zona pensante" do país: Corinthians, Cruzeiro, Fluminense ou Internacional?
Banco de luxo
Colorado perdeu o selecionável Sandro para a Inglaterra, mas ainda sobrou gordura das boas para queimar
Na formação do Inter campeão da Libertadores, o técnico Celso Roth elegeu um sistema tático que previa a participação de apenas um meia de criação. Foi o suficiente para o argentino D'Alessandro agarrar a chance e voltar a atuar como nos bons tempos de River Plate. Sobrou para os xodós do time: o preciso Andrezinho e o insinuante Giuliano, uma das grandes promessas do futebol brasileiro.
Sem biquinhos, eles foram para a reserva e continuaram a ser decisivos quando requisitados. Os (poucos) problemas do Inter estão concentrados nas outras posições do meio. Sandro foi vendido para o Tottenham, e Roth ainda procura o substituto ideal para formar dupla com Guiñazu. Mais um porém: Tinga. Ele, e só ele, desempenha a mágica função de terceiro homem do meio. Só que se machuca demais...
BOLA DE PRATA
Muito por causa da Libertadores, os titulares do meio-campo colorado aparecem com discrição no prêmio. Ah... Sandro era líder entre os volantes quando foi negociado com o Tottenham. D'Alessandro ostenta ótima média entre os meias, mas distante dos conterrâneos Conca e Montillo.
MARCAÇÃO
O Inter perdeu muito sem Sandro. Ele e Guiñazu formavam dupla perfeita. Os demais volantes Matias, Glaydson, Derley, entre outros, não estão à altura. Tinga também dá sua contribuição, mas esperar algum desarme de D'Alessandro é algo, no mínimo, improvável.
CRIATIVIDADE
D'Alessandro é um dos meias mais criativos do Brasileirão (6 assistências). Os demais titulares não ajudam muito no fundamento, exceto Tinga, mas o Inter tem um banco de fazer inveja aos adversários em termos de criatividade. Giuliano, por exemplo, tem 4 passes para gol.
BOLA PARADA
É um ponto forte. D'Alessandro bate bem na bola. Os reservas de luxo Giuliano e Andrezinho também. Cobranças diretas, ensaiadas, escanteios fechados... Tudo isso faz parte do arsenal colorado. Os zagueiros costumam aproveitar. O Inter tem problemas na bola parada defensiva.
ARTILHARIA
Sabe quantos gols D'Alessandro fez no Brasileirão? Nenhum. Os meias artilheiros do time colorado são os reservas. Andrezinho fez 4 gols. Giuliano também. O Inter, aliás, tem um ataque discreto no campeonato pelo time que ostenta. Foram 35 gols em 28 partidas.
RESERVA
Aí, o Inter se equipara ao Cruzeiro. Se não encontrou substituto para Sandro e pena para escalar o time quando Guiñazu não pode jogar, Celso Roth pode sorrir com os meias que tem na suplência: Giuliano, Andrezinho, Edu e os mais jovens, como Marquinhos e Oscar. Sobra talento.
Critério e méritos avaliados até a 29ª rodada
Sem plano B
Sincronia perfeita entre o quarteto de meio-campo não resistiu à maratona de partidas do campeonato
Formado por Mano Menezes, o meio-campo corintiano ganhou um plus com a chegada de Adílson Batista. Incrementou a sincronia, ganhou em ofensividade e ... quebrou.
A coisa começou a ruir com a lesão do discreto Ralf, protetor da defesa corintiana. Agravou-se com as convocações de Elias e Jucilei e degringolou de vez quando Bruno César se contundiu. Aí, Adílson já não era mais o técnico...
Tanto ele quanto seu antecessor, Mano Menezes, não prepararam substitutos para as eventualidades. Apenas o jovem Paulinho deu conta do recado. Edu, Danilo e Defederico não emplacaram. Tcheco foi para o Coritiba. O meio-campo corintiano, segredo da arrancada do time, virou o fio. Culpa da preparação física ou da insana maratona de partidas do Brasileirão? Agora, isso pouco importa.
BOLA DE PRATA
Jucilei, Elias e Bruno César chegaram a formar durante um bom tempo o meio-campo titular da Bola de Prata. Bruno caiu antes e foi atropelado pelos argentinos Conca e Montillo. Elias e Jucilei, convocados por Mano Menezes, oscilaram e ganharam a concorrência de Marcos Assunção.
MARCAÇÃO
Embora apenas Ralf seja especialista na matéria, Elias e Jucilei também dão conta do recado. Bruno César tem dificuldades. Tanto que os atacantes corintianos, como Jorge Henrique, Dentinho e Iarley, precisam sempre se desdobrar para reforçar a pegada do time quando ele perde a bola.
CRIATIVIDADE
Ralf está fora deste quesito. Faz o "trabalho sujo", protegendo a zaga. Os demais são criativos, cada um à sua maneira. Bruno César, além de artilheiro, é ótimo assistente (6 no Brasileirão). Jucilei e Elias armam e chegam para finalizar, sobretudo o segundo, que prima pela agilidade.
BOLA PARADA
Quem dos quatro bate bem na bola é Bruno César. Assim mesmo, fez apenas 3 gols de pênalti no campeonato (desperdiçou algumas cobranças) e nenhum de falta. O Corinthians, no geral, não é um time especialista neste tipo de fundamento, arma de muitos de seus adversários.
ARTILHARIA
Bruno César chegou a ser artilheiro do campeonato, mas caiu muito de produção. De qualquer forma, o quarteto é responsável por 20 dos 52 gols da equipe (Bruno César 11, Elias 5, Jucilei 3 e Ralf 1). O reserva Paulinho também contribuiu decisivamente, marcando 4 gols.
RESERVA
O Corinthians tem até bons jogadores de meio na reserva, mas nenhum com as características dos titulares. Ou seja: precisa mudar o estilo de jogo quando qualquer um deles se ausente. O polivalente Paulinho (misto de volante e meia) virou o quebra-galho eventual para qualquer ausência.
Critério e méritos avaliados até a 29ª rodada
Cotação do dólar
Argentino Montillo veio baratinho para incrementar um meio-campo que já era bom demais
O Cruzeiro tem um sistema de jogo, baseado na movimentação de seu meio-campo, forjado desde 2008, quando o técnico era Adílson Batista: um volante mais fixo, dois volantes que saem para o jogo e um meia que joga solto para alimentar o ataque.
As peças mudaram, o comandante também (Cuca é o técnico), mas a ideia continua ali. No Cruzeiro 2010, faltava alguém para desequilibrar. Gilberto se machuca demais e voltou chamuscado da Copa. Roger vive de lampejos. Eis que, na surdina e sem investir muito, o clube contratou o destaque da Libertadores: o argentino Montillo.
Ele chegou chegando. Ganhou a posição, deu assistências, fez gols e virou o craque do campeonato. Seus parceiros são os de sempre: Henrique, Fabrício e Paraná. E no banco tem gente: Éverton, Fabinho, Gilberto, Roger...
BOLA DE PRATA
Montillo é o craque do campeonato, líder da Bola de Ouro. Os demais começaram a brigar pelo prêmio mais recentemente. Henrique e Fabrício arrancaram junto com o time e encostaram nos líderes entre os volantes. Marquinhos Paraná corre por fora e tem poucas chances.
MARCAÇÃO
Henrique é o especialista. Rouba a bola do adversário sem cometer faltas. Mas Fabrício e Marquinhos Paraná também são bons no desarme. Montillo tem dificuldade na função, mas, como qualquer jogador argentino, não tem preguiça de marcar. Mesmo assim, o Cruzeiro "deixa o adversário jogar".
CRIATIVIDADE
Quem se destaca nas assistências (4) é Fabrício, um volante-lançador. Mas os demais também são bastante criativos. Montillo, que tem faro de goleador, não é egoísta. Sabe servir os companheiros. E Henrique, para um primeiro volante, tem um passe de bastante qualidade.
BOLA PARADA
O meio-campo cruzeirense não aproveita tão bem este fundamento. Os melhores neste quesito são os "reservas" Roger, Gilberto e até Éverton. Montillo virou cobrador de pênaltis da equipe por deficiência dos demais, com muito mais tempo de casa. Mas a bola parada não é o seu forte.
ARTILHARIA
O quarteto é responsável por apenas 8 (Montillo 6 e Henrique 2) dos poucos 39 gols marcados pela equipe. O poder de fogo não é o ponto forte do meio cruzeirense (e nem do time no geral), que tem alguns reservas com mais fome de gol, como Roger e também Gilberto.
RESERVA
É aí que o Cruzeiro se difere dos demais. Consegue ter um ótimo meio-campo suplente. Ninguém tem três meias de qualidade (Montillo, Roger e Gilberto) no país. Além disso, Cuca conta com opções para substituir os volantes. Fabinho, Éverton e companhia limitada. O Cruzeiro sobra.
Critério e méritos avaliados até a 29ª rodada
Dois é demais?
O time precisou mudar por causa da chegada de Deco. Melhorou? Essa é a questão que fica...
Todo time brasileiro sonha em ter dois meias de criação. O Fluminense tinha Conca, que ficou órfão desde a saída de Thiago Neves do clube. Com o baixinho argentino, idolatrado pelo técnico Muricy Ramalho, o Tricolor chegou à liderança do Brasileiro e preparou-se para a arrancada final depois da parada da Copa. E essa arrancada tinha um nome, um nome de grife: Deco.
O luso-brasileiro logo entrou no time. E... não emplacou. O Flu emperrou, demorou a se adaptar ao novo sistema de jogo (com um meia no lugar de um zagueiro) e perdeu pontos.
Diguinho, que dava equilíbrio ao meio, machucou-se e ficou fora por diversas rodadas, assim como Emerson e Fred. Por fim, Deco também se lesionou. O meio-campo dos sonhos do Flu por enquanto é obra do papel.
BOLA DE PRATA
Conca foi durante um bom tempo o melhor jogador do campeonato (Bola de Ouro) até Montillo chegar ao Cruzeiro. Os demais jogadores de meio do Flu não se destacam na premiação. São muito irregulares, inclusive Deco, que jogou mais partidas ruins até agora do que boas.
MARCAÇÃO
O meio do Flu é dividido em dois blocos. Diogo e os reservas Fernando Bob e Valencia são bons apenas nos desarmes. Deco e Conca são bons "apenas" na armação. O mais versátil da turma é Diguinho, que vive contundido. O Flu costuma deixar o adversário jogar demais.
CRIATIVIDADE
A capacidade de improviso de Deco é muito grande. Conca é mais "previsível", mas joga no mesmo ritmo o tempo todo. Os demais do meio não são criativos. Aliás, longe disso. Conca é o assistente do campeonato (17, no total). E Deco, mesmo bem abaixo, deu 3 passes para gol.
BOLA PARADA
Os escanteios de Conca são arma importante para os gols de cabeça dos zagueiros Leandro Euzébio e Gum. Mas os jogadores de meio do Flu fizeram apenas um gol de bola parada no campeonato: Conca, de pênalti. É um número muito baixo, comparado a outras equipes.
ARTILHARIA
Não é o forte do meio do Flu, que tem atacantes (vários) artilheiros e também zagueiros goleadores (Gum e Leandro Euzébio). Conca fez apenas 3 gols no Brasileiro, e Deco só unzinho. O reserva Marquinho aparece bem neste quesito, com os mesmos 3 gols marcados por Conca.
RESERVA
O nível dos reservas é muuuuito abaixo dos titulares. O trunfo seria Belletti, mas ele retornou mal da Inglaterra. Felizmente para Muricy Ramalho, Conca jogou praticamente todas as partidas do campeonato. Não se contunde, não é suspenso, está quase sempre disponível.
Critério e méritos avaliados até a 29ª rodada
*Matéria originalmente publicada na edição 1348 da Revista PLACAR (novembro/2010)
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