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História das Copas

Organização: A Copa dividida entre o Japão e a Coreia do Sul

Japão e Coreia do Sul deixaram as animosidades históricas de lado, investiram bilhões em estádios modernos e promoveram uma Copa ultra-high-tech

Por: Marcelo Duarte, do ABRIL NA COPA

Estadio sapporo fora
O gramado do estádio de Sapporo foi montado sobre uma plataforma de 8 000 toneladas do lado de fora | Crédito: AFP Image Forum

A primeira Copa do Mundo do século 21 foi também a primeira Copa sediada na Ásia e a primeira realizada em conjunto por dois países. Em 31 de maio de 1996, a escolha da sede foi anunciada em Zurique, na Suíça. Coreia do Sul, Japão e México eram os candidatos. O México, país mais pobre e que já havia realizado duas Copas recentes (1970 e 1986), entrou na disputa sem grandes chances. Desde 1958, a Copa era sediada alternadamente entre países da Europa e das Américas. Na visão da Fifa, o interesse pelo futebol na Ásia vinha crescendo e era fator estratégico para consolidar o esporte mundialmente — assim como foi nos Estados Unidos, em 1994. Os japoneses haviam mostrado interesse em receber a Copa numa carta enviada ao presidente da entidade, João Havelange, em 1989. A Coreia do Sul não quis ficar para trás e também apresentou sua candidatura. Como os dois países tinham estrutura e capital para fazer o Mundial, mas ambos não tinham retrospecto na competição, a Fifa tomou uma decisão salomônica: dividir a competição em duas sedes. Antes de a votação começar, numa manobra de bastidores, os dois concorrentes se uniram para ter o evento, apesar da rivalidade histórica entre eles.

Japão e Coreia do Sul ainda tinham sérios rancores frutos de embates políticos, como a ocupação japonesa da Coreia até o fim da Segunda Guerra Mundial. Algumas dessas mágoas ficaram evidentes durante o torneio, disputado entre 31 de maio e 30 de junho. Os organizadores coreanos sentiram o golpe da ausência do imperador japonês Akihito na cerimônia de abertura da Copa, em Seul. O presidente da Federação Coreana de Futebol chegou a declarar que aquilo era “como fazer um casamento e a noiva não aparecer na cerimônia. Era uma obrigação dele”.

De todo modo, os dois países não economizaram. Investiram bilhões de dólares para construir e reformar os 20 estádios que receberam jogos — a maior quantidade de toda a história. A organização só lamentou os clarões que puderam ser vistos nas arquibancadas. Na primeira rodada, por exemplo, a média de público ficou em 37 426 pagantes, 12% a menos que na Copa anterior, na França, em 1998. A Fifa tentou justificar, dizendo que a Ásia era fora de mão para torcedores da Europa e da América. A imprensa dos dois países não gostou da explicação e disparou: a culpa tinha sido da entidade, que inventou uma confusa política de venda de ingressos.

O Estádio de Sapporo, no Japão, que parece obra de ficção científica: uma plataforma traz o campo para dentro do estádio
Japão já tem estádios no padrão Fifa, como o Sapporo, que parece obra de ficção científica | Crédito: AFP Image Forum

No fim, a Copa de 2002 será lembrada como a “Copa High-Tech”. O estádio de Sapporo, no Japão, que custou 470 milhões de dólares, parece obra de ficção científica. O gramado foi montado sobre uma plataforma de 8 000 toneladas do lado de fora. Nos dias de jogos, uma operação de 5 horas levava a plataforma lentamente para dentro de campo. No estádio de Daegu, na Coreia do Sul, antes do jogo dos anfitriões contra os Estados Unidos, os torcedores se deliciaram com uma partida virtual do videogame Fifa 2002, transmitida pelos telões. Foi mais empolgante que o resultado de 1 x 1 que assistiriam em campo, logo depois.

A POLÊMICA DOS REPLAYS

Os telões mostravam todos os lances no início da Copa do Mundo de 2002
Os telões mostravam todos os lances no início da Copa do Mundo de 2002 | Crédito: Getty Images

Fascinada com os telões gigantes dos estádios asiáticos, a Fifa liberou os replays. Os telões mostravam todos os lances, pois a entidade dizia que não poderia fazer uma edição para a televisão e outra para os estádios. Só que lances polêmicos começaram a constranger os árbitros e auxiliares. O bandeirinha brasileiro Jorge Paulo de Oliveira declarou que perdeu totalmente a concentração no momento em que deu uma espiadela no telão para ver se tinha errado num lance. Quando percebeu a burrada que tinha feito, a Fifa mudou de ideia e proibiu os replays. O diretor de comunicação da entidade, Keith Cooper, justificou: “Nossa atitude ainda é que será preferível, num mundo ideal, mostrar todos os replays, mas a experiência começa a provar que isso nem sempre é prudente”.

Fonte: PLACAR