O sangue argentino de Trezeguet

Atacante de 33 anos joga a segundona argentina no River Plate, seu time de coração

Por Redação PLACAR 15/05/2012, às 07h21

Trezeguet na França: campeão mundial e da Europa
Trezeguet na França: campeão mundial e da Europa / Crédito: Foto: Ricardo Correa

Qual um Cristo boleiro, atacante ressuscita, aos 33, jogando a segundona argentina no River, seu time de coração, com fome de vida e de bola

O homem apressou os passos pela escada da tribuna e correu pela avenida Udaondo como quem escapa à realidade. Ia com os punhos apertados de impotência e o olhar crispado e frágil, convidando às lágrimas. Ninguém o reconheceu, ninguém consertou nele sua amargura. Os 50000 torcedores do River que tinham sofrido ao seu lado estavam cegos de sofrimento, vazios de alma. Aquele homem era o multicampão David Trezeguet.

Nada mais lhe faltava no futebol - oito títulos com a Juventus, quatro com o Monaco, dois com a seleção francesa -, mas ele tinha comparecido ao estádio Monumental com um desejo visceral: que o River vencesse o Belgrano e se salvasse do descenso. Mas a guilhotina do destino castigou o gigante argentino e Trezeguet, o torcedor Trezeguet, sentiu que o infortúnio era completo. O astrofrancês tinha perdido a bússola da vida e reencontraria o rumo quatro meses depois, em Buenos Aires.

Qual um Cristo boleiro, Trezeguet ressuscitou em quatro dias de novembro passado. Desinflado de motivações, aceitou um convite de seu tio Tomás para desfrutar de miniférias na capital argentina. Tomás levou-o ao campo do Defensores de Belgrano para que visse de perto Ariel Ortega, um de seus ídolos. No dia seguinte presenciou o Platense, o clube onde debutou, em 1994, aos 16. Um dia mais tarde, assistiu à festa das torcidas de Vélez e Boca. E soou o despertador para essa ambição que parecia adormecida. Trezeguet não podia se despedir do futebol sem desfrutar de uma experiência argentina. Seu tio, antes de saber de suas intenções, avisou ao vice-presidente do River, Diego Turnes: "Chamem-no. David está morto de vontade de voltar".

Explicou mal: David vivia por voltar. "Sem dar-me conta", diz hoje Trezeguet, "tinha entrado mentalmente em outra fase: pensava em investimentos, já raciocinava como um exjogador. O futebol, para mim, é paixão. Na Argentina, recuperei a paixão. Você vê o ambiente e diz: 'Isto é o futebol'. Agora me sinto vivo, recuperei sensações perdidas."

Essas sensações vêm-lhe da infância. Vale a pena explicar. Jorge Trezeguet, o pai de David, foi um zagueiro discreto nos anos 70. Jogou em equipes médias e pequenas até que em 1975 se transferiu para o francês Rouen. Ali nasceu David em 1977, mas três anos depois acabou a aventura francesa e toda a família retornou a Villa Martelli, na Grande Buenos Aires. O garoto fez-se futebolista e Rafael Santos, o mesmo representante que tinha levado seu pai ao Rouen, conseguiu-lhe um teste na França. E então começou a escrever sua reconhecida história de goleador internacional, adotando a nacionalidade francesa.

Desde sua chegada ao River, em janeiro deste ano, Trezeguet está de volta. Como futebolista e como homem. "A França permitiu que me desenvolvesse cultural e economicamente, mas meu sangue é argentino. Meu objetivo era jogar aqui", diz o rapaz de 34 anos, que ressuscitou aos 33, qual um Cristo boleiro.

Matéria originalmente publicada na Revista PLACAR Edição 1366, maio de 2012

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