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O fiasco do professor

Instituto Wanderley Luxemburgo, aventura educacional do treinador, deixa saldo negativo

Por: Redação PLACAR - Atualizado em

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O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo | Crédito: Ilustração: Marcelo Calenda

Processos na justiça, imbróglios societários e alunos lesados. Esse é o saldo do Instituto Wanderley Luxemburgo, aventura educacional encabeçada pelo treinador do Flamengo que naufragou dois anos depois de nascer

A noite de 1º de outubro de 2007 será eternamente um marco na vida de Vanderlei Luxemburgo. Nessa data, o treinador ciceroneou no Jockey Club de São Paulo um pomposo coquetel. Entre os convidados, Pelé, Hortência e o ministro do Esporte, Orlando Silva. E jornalistas aos montes. Era a festa de lançamento do Instituto do Futebol Wanderley Luxemburgo (assim, com "w" e "y", grafia que ele havia abandonado anos antes). Uma iniciativa ambiciosa que, dois anos depois, viraria um retumbante fracasso, com troca de acusações e ações judiciais envolvendo o técnico e seus ex-sócios, além de um exército de alunos insatisfeitos e se sentindo lesados.

A ideia não era ruim. A criação de um centro de ensino voltado ao esporte é necessidade em um país que vai receber a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Em cursos de extensão e pós-graduação, o instituto formaria fisioterapeutas, nutricionistas, fisiologistas, psicólogos, técnicos, preparadores físicos, assessores de imprensa e profissionais de marketing, entre outras especializações. O mercado é carente, existe um interesse enorme no assunto, e um nome com o peso de Luxemburgo ajuda a vender as aulas.

O caminho entre o projeto promissor e o fiasco total foi percorrido em pouco mais de dois anos. E os fatores que levaram o IWL de um ponto a outro dividem as opiniões dos sócios, dos empresários que investiram em franquias e do treinador que emprestou seu nome à instituição de ensino.

Ideia do juiz

O projeto de criação do IWL foi oferecido a Luxemburgo no início de 2007, quando comandava o Santos. Ele foi procurado por um juiz de Santos chamado Celso Ricardo Peel Furtado de Oliveira, que apresentou o negócio.

A esposa do juiz, Andrea Corrales, já tinha experiência no segmento de educação. Ela geria uma instituição que preparava alunos para concursos públicos, e o objetivo de Peel era unir essa experiência ao valor que a "marca" Luxemburgo tinha no futebol. Além de Andrea Corrales, a sociedade contava com José Roberto Corrales, irmão dela, e Fernando Luft, dono do grupo Luft, que atua nos segmentos de logística e transporte. Luft é descrito por uma série de envolvidos no projeto como o grande artífice financeiro da criação do IWL.

O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas
O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas | Crédito: Sem crédito
A ideia era montar uma sede para o instituto - o grupo escolheu Barueri, na Grande São Paulo. Os professores ministrariam aulas de lá, em salas com espaço dividido por alunos e câmeras. O conteúdo seria transmitido via satélite e ao vivo para filiais em diferentes partes do Brasil e até do mundo. Na festa do Jockey, a organização projetava abrir 30 unidades no país até o fim daquele ano - cada uma seria vendida por algo entre 150000 e 200000 reais, e as mensalidades dos cursos girariam em torno de 400 reais. Toda a montagem seria custeada pelos franqueados.

O grupo também trabalhava com uma previsão de faturamento bruto mensal de 150000 reais para cada franquia. Com isso, havia uma expectativa de recuperação do investimento em até quatro meses.

Luxemburgo era um chamariz do projeto, mas não era o único. O treinador cercou-se de um grupo de profissionais conhecidos no futebol brasileiro, que foram convidados por ele para dar aulas no instituto. No começo, o IWL tinha, por exemplo, Suzy Fleury como titular de psicologia do esporte, José Carlos Brunoro como responsável pelo marketing, Nilton Petrone (também conhecido como Filé) na área de fisioterapia e Antonio Mello (que acompanha Luxemburgo por todos os times que o técnico treina) lecionando preparação física.

Havia uma parceria com a Universidade Castelo Branco, do Rio, que emitia títulos de especialização para os alunos que concluíssem o programa.

Contas de menos

A remuneração dos professores estava condicionada ao número de alunos, regra que também valia para as franquias. Cada unidade ficava com 45% da arrecadação, e os outros 55% eram retidos pela matriz. Segundo as contas de um dos franqueados, era preciso ter um mínimo de 50 matriculados para uma unidade de estrutura enxuta, administrada pelo dono e com funcionários apenas na secretaria, gerar lucro.

O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas
O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas | Crédito: Sem crédito
Os problemas começaram na venda. Pouco depois do lançamento, o preço de cada franquia desabou para 50000 reais. E, com os descontos oferecidos, nenhuma das unidades chegou a ser comercializada por esse montante. Somados os custos de instalação, pessoal e propaganda, o investimento inicial de uma franquia passava de 200000 reais. Com o número comedido de alunos nos primeiros meses, inviabilizou-se o retorno financeiro na velocidade que os sócios prometiam aos franqueados.

"Eles achavam que teriam sucesso desde o primeiro dia. Prometeram remuneração em função do número de alunos, e achavam que cada unidade chegaria rapidamente a 1000 alunos pagando 400 reais por mês. Acreditavam que tinham um negócio gigantesco nas mãos, mas chegar a 1000 alunos é algo astronômico. Muitas faculdades não têm isso", diz Helcio Kronberg, advogado que foi sócio de seis franquias do IWL no Brasil e outras três nos Estados Unidos.

No total, o investimento do grupo de Kronberg no IWL ficou em torno de 3 milhões de reais. Agora cobra dos sócios do IWL esse valor na Justiça, acrescido de danos morais. "O que aconteceu é que o franqueador começou a enfrentar problemas e em determinado momento fechou as portas. Quem ainda estava com unidades abertas teve de fechar, e muitos alunos não puderam concluir o curso. Outros até terminaram, mas ficaram sem certificado. Esse passivo com os alunos colocou os franqueados em situação delicada", explica Maurício Costa, advogado que representa 11 franquias (as seis nacionais de Kronberg e outras cinco) em ações na Justiça contra o instituto.

Nos tribunais

Costa moveu cinco processos contra o IWL, e apenas um foi julgado em primeira instância. O Centro Educacional Agostini, franquia controlada por Andreza Agostini, conseguiu vitória na 35ª Vara Cível da Comarca de São Paulo, que estipulou uma indenização de 550000 reais, mais correção monetária e royalties. A ação foi julgada à revelia porque o instituto não se manifestou. O processo de execução já foi iniciado em nome da empresa Instituto Wanderley Luxemburgo Ltda.

Só no Fórum Central de São Paulo, há oito processos contra o IWL. No de Barueri, há outros cinco. Paulo Mendes, dono de uma franquia do IWL em Maringá, ainda não acionou a Justiça. Professor de educação física, ele havia recorrido a um colega e iniciado uma sociedade para abrir uma unidade do negócio. Acumulou um prejuízo de 200000 reais. Fez empréstimos bancários, e diz que ainda levará cerca de cinco anos para compensar o déficit. Ele geriu a franquia por dois anos. Conseguiu 32 alunos no primeiro, mas viu o número desabar para 12 no segundo. "O problema é que os cursos foram péssimos. Com exceção de dois ou três professores, eles davam palestras e não aulas. Não era um conteúdo com nível de pós-graduação. Levei mais de 100 pessoas para verem as aulas, mas ninguém quis se inscrever em um curso", completa o empresário.

O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas
O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas | Crédito: Sem crédito
Olha o nível!

Críticas ao nível das aulas são recorrentes no discurso de franqueados e alunos. Há reclamações por falta de um projeto pedagógico e pela ausência de comprometimento - sobretudo por serem cursos chancelados por uma instituição de ensino superior, com status de pós-graduação. Como os professores eram profissionais do futebol, muitos deles enfrentavam problemas de agenda. "O Luxemburgo deu uma aula só", acusa Mendes. "Isso não existe. Havia um programa, e nós até tivemos duas aulas transmitidas ao vivo pela rádio Bandeirantes", responde Luiz Lombardi, assessor de imprensa de Vanderlei Luxemburgo e responsável pelo curso de assessoria de imprensa no IWL.

Contudo, a discussão sobre o nível das aulas era apenas uma das polêmicas. A entidade chegou a ter mais de 1000 alunos matriculados em novembro de 2008, mas começou a conviver com problemas administrativos. As aulas via satélite, por exemplo, foram substituídas por cursos transmitidos pela internet, modelo mais barato de negócio.

A mudança coincide com uma alteração no comportamento de Fernando Luft. O principal investidor do projeto havia diminuído seu ímpeto em função da crise financeira internacional, e o reflexo disso no IWL foi imediato. Os problemas começaram a aproximar as franquias. Além de reclamações sobre o sinal de satélite e o trabalho de professores, as unidades criticavam a expansão do IWL, que começou a ameaçar a exclusividade territorial que o contrato oferecia a esses centros - para não criar rivalidade entre escolas, o instituto se comprometia a não abrir mais de um ponto em uma mesma região.

Em 2008, as franquias se aglutinaram em torno de uma associação, que nunca chegou a ser constituída juridicamente. Esse grupo passou a servir como fórum para conversas e discussões sobre problemas comuns que as unidades viviam.

O grupo que controlava o IWL recorreu a José Carlos Brunoro, que até então era professor de marketing esportivo. Entre o fim de 2008 e o início de 2009, ele assumiu a gestão e recebeu a incumbência de "salvar" a instituição. Enquanto isso, algumas unidades, como as seis nacionais controladas por Kronberg, já haviam deixado de aceitar novos alunos.

A grana sumiu

Nesse momento, começaram a surgir também os problemas de repasse. Por contrato, o pagamento de mensalidades deveria ser feito via boleto bancário diretamente à matriz, que repassaria a parte relativa às franquias. Na prática, algumas unidades passaram a inscrever alunos com uso de cheques pré-datados, e esse dinheiro parava diretamente nas escolas, sem passar pela matriz. O faturamento do IWL minguou. O número de alunos já havia caído, mas os problemas de repasse e a falta de respaldo dos investidores complicaram ainda mais a situação administrativa da rede, que passou a aumentar os atrasos em pagamentos.

O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas
O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas | Crédito: Sem crédito
Em meio a esse processo, o IWL perdeu uma série de professores - os advogados Milene Castilho e João Zanforlin e a psicóloga Suzy Fleury, por exemplo. A ex-jogadora de basquete Hortência, que era responsável pela venda das franquias, também abandonou o barco. Oficialmente, todos eles alegaram problemas para conciliar agendas. PLACAR tentou ouvir vários desses profissionais, mas foram poucos os que aceitaram falar sobre o caso - e, ainda assim, pedindo anonimato.

A situação ficou ainda mais caótica em maio de 2009, quando Kronberg fechou de uma vez todas as unidades que ele controlava - as franquias dos Estados Unidos nem chegaram a iniciar a operação. Isso gerou um efeito cascata, que contaminou outras escolas do grupo. Na mesma época, acontecia em Barueri uma reviravolta. Fernando Luft, Andrea Corrales e José Roberto Corrales venderam o IWL para um empresário chamado Mario Malato, que pagou a quantia simbólica de 15000 reais pela empresa. A companhia vivia uma situação de penúria. O fato de ele ter colocado dinheiro em um negócio fadado ao fracasso fez surgirem acusações de que Malato se tratava de um "testa de ferro" dos antigos sócios, que assim deixariam de ter responsabilidade legal sobre a escola.

"Não sabemos, na verdade, qual é a participação do Malato no negócio. É difícil acreditar que uma pessoa resolva comprar uma participação grande em um negócio que está à beira da falência e do fechamento, que tem uma série de passivos no mercado. É no mínimo estranho", afirma o advogado Maurício Costa.

"A Andrea, mulher do juiz, foi a primeira a sair do negócio. Aí o Fernando [Luft] e o cunhado do juiz disseram para o Vanderlei que queriam montar uma empresa para gerir cursos em outros segmentos. Chegaram a falar com a Ana Botafogo para fazer algo com balé. O Vanderlei até se interessou, mas eu disse que não. Com essa desculpa, eles montaram a empresa e se retiraram da sociedade como pessoas físicas. Passaram a ser representados pela Fractal, essa nova empresa, e aí venderam para um laranja", diz Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta, advogado do treinador.

Luxemburgo ficou revoltado por não ter sido consultado sobre a venda - por contrato, a empresa tinha de ser oferecida a ele antes de ser negociada com qualquer outro investidor. Luxemburgo se recusou a participar de uma reunião com Malato, e enviou Catta-Preta como representante. "O cara fingiu que não sabia falar português. Eu disse que marcaria outro encontro e que levaria um intérprete. Enquanto isso, o Fernando [Luft] e o advogado dele riam cinicamente", conta Catta-Preta.

Aos gestores do IWL, Malato teria dito que tinha um investidor italiano, mas que esse empresário desistiu do negócio e o deixou sem dinheiro para salvar a empresa. No fim de 2009, não havia entrada de dinheiro e as contas estavam atrasadas - a folha de pagamento, inchada por uma série de salários acima da média do mercado, girava em torno de 100000 reais. Nesse momento, a escola encerrou suas atividades.

"Eles simplesmente fecharam as portas. Não atendiam ao telefone, e eu não conseguia falar com ninguém. Não existiu um comunicado de fechamento. Recebi apenas uma relação de advogados e os contatos do Catta- Preta e do Malato", diz Mendes, um dos sócios da franquia de Maringá.

O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas
O fiasco do Instituto Wanderley Luxemburgo: sem apostilas | Crédito: Sem crédito
Saldão de liquidação

O saldo do IWL é extremamente negativo. A escola deixou de pagar despesas como aluguel, condomínio, fornecedor de satélite, internet e sistema de controle administrativo. O instituto só não tomou mais processos porque o treinador investiu dinheiro do bolso para saldar compromissos com professores - o valor não foi confirmado, mas PLACAR apurou que Luxemburgo colocou mais de 1 milhão de reais na escola durante o processo falimentar. E o instituto só não foi despejado porque o andar ocupado pela empresa em Alphaville era de um amigo do treinador.

O nome vai estar eternamente ligado, mas Vanderlei Luxemburgo não é mais sócio do IWL. No dia 31 de agosto de 2010, a juíza Leonete Maria da Silva, da 3ª Vara Cível da Comarca de Barueri, concedeu liminar que afastou o treinador da empresa e que anula a venda da companhia, considerada fraudulenta.

O contrato social do Instituto Wanderley Luxemburgo Ltda. diz que o treinador não tem qualquer relação com prejuízos ou débitos causados pela escola. Trata-se de uma cessão de imagem, e ele é listado como sócio ainda que não tenha obrigação financeira com o projeto.

Luxemburgo foi procurado por PLACAR, mas não fala diretamente sobre o assunto. Tampouco Malato e os outros sócios responderam aos pedidos de entrevista. Quando foi noticiada a condenação do instituto no processo movido pelo Centro Educacional Agostini, em agosto do ano passado, Luxemburgo publicou em seu antigo blog uma declaração, cuja parte principal era: "Chegou ao meu conhecimento o fato de que o instituto que leva o meu nome, Instituto Wanderley Luxemburgo, atravessa momento difícil no aspecto financeiro. O UOL noticia condenação de alto valor oriunda de ação promovida por franqueado. Lamento profundamente tal situação e quero esclarecer os fatos de forma a não pairar nenhuma dúvida. Que fique bem claro: não respondo legalmente e não responderei por prejuízos relativos ao Instituto Wanderley Luxemburgo sejam de que natureza forem. Aqueles que me propuseram o empreendimento, aos quais já me referi, e a empresa FRACTAL, que os sucedeu, devem satisfações a mim, aos alunos, aos franqueados e à sociedade".

"Achei meio enganação", diz aluna

O Instituto Wanderley Luxemburgo (IWL) deixou como legado uma legião de alunos insatisfeitos. As críticas passam por baixo nível das aulas, ausência de professores e o fechamento abrupto do centro de ensino.

Sobre as aulas, a análise recorrente é que os professores, profissionais do futebol, falavam sobre suas experiências e não sobre o conteúdo pedagógico. Para muitos estudantes, aquilo se aproximava mais de palestras que de aulas de pósgraduação. Alunos também reprovam a ausência de professores, que muitas vezes recorriam a substitutos. Como as aulas eram geradas da matriz, a comunicação com os mestres era difícil. "Na verdade, eu achei meio enganação. O professor era um, mas nunca tínhamos aula com ele", diz Liciane Linhares, que cursou jornalismo esportivo e gestão

do esporte.

Liciane esteve ausente nas últimas aulas porque teve gestação de gêmeos. Não estava na sala quando o fim do IWL foi anunciado e não recebeu comunicado oficial. Tentou retornar, descobriu que a empresa não existia mais e ficou sem seus certificados. Outros alunos conseguiram concluir o curso. Um aluno de fisioterapia, que pede anonimato, procurou uma série de profissionais do IWL até falar diretamente com a Universidade Castelo Branco, que emitiu um diploma que não faz nenhuma menção ao IWL. Procurada pela reportagem, a universidade não havia se manifestado até o fechamento desta edição.

Fonte: Revista PLACAR