Ex-jogador do Santos de Pelé é citado como inspiração pelo treinador corintiano Tite
Nascido em Caxias do Sul, Tite gosta de demarcar suas origens e princípios publicamente sempre que possível, como todo bom gaúcho. Ao falar sobre a escola que procura seguir como treinador, o corintiano costuma citar César Luis Menotti. Ex-companheiro de Pelé no Santos, o argentino, com passagens pelo Boca Juniors como técnico e jogador, minimiza a influência da torcida na Bombonera no primeiro jogo da final da Copa Libertadores, marcado para às 22 horas (de Brasília) desta quarta-feira.
'A torcida do Boca é parecida com a do Corinthians. Se há categoria dentro de campo, os jogadores não devem pensar que o público influencia', declarou Menotti em entrevista por telefone à GE.Net. Campeão mundial no comando da seleção argentina na Copa de 1978, realizada no próprio país, ele comandou clubes do porte de Barcelona, Atlético de Madrid e Peñarol ao longo da carreira, além dos locais River Plate e Independiente.
Menotti confessou que não sabia da admiração nutrida por Tite anos depois de alcançar seu auge no cenário internacional, mas procurou retribuir as seguidas menções do treinador gaúcho, finalista da Copa Libertadores, e se disse 'honrado' pelas lembranças. Torcedor assumido do Rosário Central, clube que também defendeu em campo e comandou, ele negou preferência pelo Boca na final diante do Corinthians.
Aos 73 anos, Menotti ainda lembrou com saudosismo a rápida passagem pelo Santos no final da década de 1970 e praticamente descartou a possibilidade de ver o compatriota Lionel Messi se aproximar do nível de Pelé, seu companheiro na conquista do título paulista de 1968. Credenciado pelo triunfo na Copa de 1978, ele falou com receio sobre as chances da Argentina em 2014: 'sozinho, o Messi não vai nos salvar'.
Como ex-jogador e técnico do Boca Juniors, qual é a sua avaliação sobre esse time do Júlio César Falcioni que está na final da Copa Libertadores?
O Boca é um time difícil, altamente competitivo. A final terá dois adversários com as máximas aspirações e respaldados por grandes histórias, será uma partida muito complexa. O Boca vai dar tudo, porque acaba de ser eliminado do campeonato nacional e as expectativas em torno da Libertadores são muito grandes.
O senhor chegou a ver algum jogo do Corinthians nesta edição da Copa Libertadores? O que achou do time?
Eu vi a segunda partida da semifinal contra o Santos. Acho que o Corinthians é bem parecido ao Boca na medida em que não sobra talento, mas também é uma equipe organizada, combativa e difícil. Não é o Corinthians do Rivellino, mas é um adversário difícil, um bom time.
Aqui no Brasil, muito se fala da força da torcida do Boca Juniors na Bombonera. O senhor acha que o apoio das arquibancadas pode fazer a diferença no jogo de quarta-feira?
A torcida do Boca é parecida com a do Corinthians. Não há muita diferença, é a mesma coisa. São torcidas muito fanáticas, que apoiam muito. Estamos falando do Corinthians, um time com grandes jogadores e com muita personalidade. Se há categoria dentro de campo, os jogadores não devem pensar que o público influencia. A torcida na Bombonera apenas faz com o que o jogo fique mais apaixonante.
Sei que o senhor é torcedor do Rosário Central, mas por ter passado pelo Boca Juniors como técnico e como jogador, pretende torcer pelo clube nesta final?
Não, não. Eu quero que ganhe quem jogar melhor e merecer. Realmente, sou torcedor do Rosário Central, estamos lutando para ver se conseguimos voltar para a Primeira Divisão.
Ao falar sobre a escola que procura seguir como treinador, o Tite, do Corinthians, costuma citar o senhor como exemplo. Sabia disso?
Não sabia, mas de qualquer maneira eu agradeço. Ele é muito atencioso.
O senhor treinou a Argentina em duas Copas (1978 e 1982) e comandou alguns grandes times do futebol mundial, como o Barcelona. Muitos anos depois, ainda é citado como exemplo por um treinador brasileiro...
Isso é gratificante, sobretudo porque eu sempre tive uma relação muito cordial com os brasileiros. Eu vivi no Brasil e, antes de encerrar a carreira no Juventus-SP, tive a chance de defender o Santos ao lado de grandes jogadores em 1968. A época mais brilhante do futebol brasileiro foi de 1960 a 1970, em um processo que culminou com o tricampeonato no México, e eu participei de parte dela. Continuo tendo uma ótima relação como os grandes jogadores brasileiros daquela época. O técnico do Corinthians é um homem mais jovem e fico muito feliz que se lembre de mim, é uma honra.
O senhor teve o Pelé como companheiro no Santos...
Eu joguei com Pelé, Coutinho, Edu, Negreiros, Clodoaldo, Abel, Toninho, Joel, Carlos Alberto, Rildo. O Santos tinha um timaço e fomos campeões paulistas em 1968.
O site oficial do Santos diz que o senhor jogou apenas uma partida pelo Santos. O que houve?
Era muito difícil jogar naquele time do Santos. Eu acho que seríamos campeões com os reservas também. Ainda tinha o Mengálvio, o Lima. Eu acho que seríamos campeões com qualquer um dos dois times. Foi uma época muito brilhante do Santos, sobretudo porque tinha o maior da história, o Pelé. No ano seguinte, eu fui para o Juventus-SP.
O senhor acha que, dentro de alguns anos, o Messi pode se aproximar do Pelé?
As épocas são diferentes, mas ser como o Pelé é muito difícil. Ele reunia tudo. Diferentemente de alguns outros grandes jogadores, até fisicamente o Pelé era incrível em termos de agilidade. Acho que foi único e será muito difícil encontrar alguém parecido.
Como o senhor avalia o trabalho do técnico Alejandro Sabella na seleção argentina até agora?
Ainda não vimos muita coisa. Atualmente, os treinadores de seleções enfrentam muitas dificuldades. Não há tempo para treinamento, a Argentina tem todos os seus jogadores no exterior, não convocam jogadores que atuam na Argentina, não se pode trabalhar. Mais do que treinadores, são secretários técnicos: chamam os jogadores um dia antes, fazem um treino e jogam no dia seguinte. É muito difícil formar uma grande equipe assim.
Neste cenário, o que o senhor espera da seleção argentina na Copa do Mundo de 2014?
O Messi sozinho, não garante nada. Na Copa de 1970, que foi o Mundial mais brilhante que eu já vi, o Brasil não era só Pelé. Também tinha Rivellino, Tostão, Clodoaldo, Jairizinho, Gérson. Não se ganha um Mundial apenas com um jogador. O Messi vai desequilibrar e por sorte ele é nosso, mas se não armarmos um bom time, o Messi não vai conseguir nos salvar.
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