Márgelo tem um sonho

Sargento da reserva decidiu montar clube que obedecesse a tudo que ele acha bacana no futebol

Por Redação PLACAR 25/06/2012, às 13h25

Geraldo Márgelo
Geraldo Márgelo / Crédito: Foto: Alexandre Battibugli

O sargento da reserva Geraldo Márgelo de Oliveira recebeu uma grana inesperada e decidiu montar um clube que obedecesse a tudo que ele acha bacana no futebol

Por Felipe Zylbersztajn

O Vectra modelo 2000 corta a estrada de terra na região rural de Guaratinguetá, interior de São Paulo. São 3 da tarde. O dia está claro, o tempo está fresco e o carro não chega a levantar poeira no caminho. Geraldo Márgelo "Dado" de Oliveira, 52 anos, sargento da reserva, dirige sozinho. A certa altura, ele embica o Vectra numa chácara em que uma casa num intenso tom de laranja - o mesmo da camisa da seleção holandesa - se destaca na paisagem bucólica. Estamos no Centro de Treinamentos de Márgelo. Ou melhor, na Academia Desportiva Manthiqueira. Magro, cabelo ralo, olhos apertados e um nariz pouca coisa maior do que alguém poderia esperar para sua fisionomia, Márgelo veste uma camisa feita sob medida do mesmo tom da casa.

Sim, o presidente do clube é fã da seleção holandesa. Mas essa é apenas a idiossincrasia mais fácil de ser notada por ali (e, provavelmente, a menos interessante delas). Com a mão esquerda, ele simula a aba de um boné para proteger os olhos do sol, e aponta com o indicador direito para a serra ao fundo. "Eu nasci no pé da serra da Mantiqueira, filho de lavrador." Depois, vira-se para o CT e o contempla por alguns instantes. A instalação tem sete quartos com três beliches cada um, vestiário, refeitório, sala de vídeo, academia, sala de fisioterapia e consultório odontológico. A cadeira de dentista é laranja. Uma estrutura e tanto para um time que disputa a segunda divisão do Campeonato Paulista (como é chamada a quarta e última divisão do Estadual).

Tudo pertence a Márgelo, e ele não consegue disfarçar a satisfação. Afinal, não é qualquer um que tem um time de futebol para chamar de seu - especialmente se você for um sargento aposentado, de classe média. Somente para filiar um clube na Federação Paulista de Futebol é necessário desembolsar 600 000 reais. Em 2010, de uma hora para outra, ele bancou tudo aquilo. Na região, Oliveira conta a história de que foi a venda inesperada de umas terras em Goiás (ele trabalhou na região Centro-Oeste durante seus anos de Aeronáutica) que financiou o Manthiqueira. O fato é que, com uma folha de 50 000 reais - "só de alimentação, dá uma média de 15 000 a 20 000" -, ele aposta num clube que reflita sua visão de mundo. E Márgelo é um romântico, um daqueles caras que idolatram a seleção holandesa de 74 e a brasileira de 82.

Brasão
Brasão / Crédito: Sem crédito

ANTI-LEI DE GÉRSON

"Não gosto de jogador malandro, que tenta cavar falta, que reclama com a arbitragem, que usa o braço", ele explica, com sotaque caipira, enquanto caminha ao lado do campo onde o time treina. "Não dá, poxa. Fico puto quando vejo o cara trançar a perna no outro. Não quero isso aqui!" O clube tem, entre as equipes sub-20 e profissional, 40 atletas que recebem entre um salário mínimo e 1 000 reais. "Vou dispensar um garoto no fim de semana. Bom jogador, mas se acha melhor que os outros, reclama muito. Outro dia, deu as costas por não ter recebido uma bola. Se um cara faz isso, quebra toda nossa filosofia de trabalho."

Márgelo é formado em filosofia e tem especial apreço pelo alemão Immanuel Kant, conhecido pela "filosofia moral". Nas preleções, o presidente insiste que o Manthiqueira deve apontar o erro, caso o juiz dê um pênalti equivocadamente a favor do time. "Agora, é difícil fazer o jogador entender isso, viu? Nossa cultura é de tirar vantagem de qualquer situação." Para facilitar seu trabalho, ele prefere contratar jogadores jovens. Numa analogia com a roça, diz que as cabeças mais novas são como um solo fértil, em que fica mais fácil plantar sua semente. O mais velho do grupo acabou de completar 25 anos. A idade média é de 19. E todos eles devem seguir uma cartilha informal com recomendações expressas do presidente.

Entre as diretrizes, chamam atenção a de que não se podem comemorar gols com danças ou qualquer atitude que menospreze adversário e torcida, a de que não se pode buscar a bola no fundo das redes para não causar confusão e a de que o time não reza o Pai Nosso em voz alta antes dos jogos. Em vez disso, fica em silêncio por 2 minutos, de mãos dadas. "Cada um faz a oração de seu jeito. O católico, o evangélico, o espírita..." Márgelo se considera um panteísta (Deus está em todas as coisas) que acredita em reencarnação. E de alguma forma tenta "reviver" o Carrossel da seleção holandesa de 1974, criado por Rinus Michels. "O que tenho é uma espécie de síndrome de Estocolmo [em que a vítima se apaixona pelo algoz] que desenvolvi quando o Brasil perdeu para a seleção de Johan Cruijff. Foi o dia mais triste da minha vida." Quase 40 anos mais tarde, o time de Márgelo é obrigado a jogar no esquema 4-3-3, como os holandeses faziam. E a técnica Nilmara Alves sabe disso.

NOVO CARROSSEL CAIPIRA?

Há cerca de dois meses, quando começou a circular a notícia de que o Manthiqueira jogaria sob o comando de uma treinadora, o clube virou notícia. A figura de Nilmara, 31 anos, fã de Muricy Ramalho, zagueira de um time amador de Aparecida, pipocou em jornais, portais de internet e na televisão. Acredita-se (embora a Federação não tenha registros confiáveis) que seja a primeira técnica de um time profissional masculino em São Paulo. "A gente trabalha no 4-3-3, com os volantes fazendo o papel de meias quando estão com a posse de bola", diz ela, procurando com o olhar a aprovação do presidente. "É isso mesmo", ele confirma. "A ideia é que eles tenham liberdade total para criar as jogadas, mas dentro desse esquema."

Ele proíbe que os técnicos passem instruções em voz alta à beira do campo. "Futebol é arte, e o artista tem de ser livre. Não gosto daquela coisa de que o jogador pega a bola e o técnico fica berrando 'vira', 'volta', 'cruza'. Já imaginou alguém dizendo como um pintor deve dar as pinceladas num quadro?" Nilmara sabe que pode - e deve - chamar um atleta de canto para avisar que certo setor está descoberto, por exemplo. Só isso. A medida parece combinar com o perfil da treinadora de voz baixa e sem experiência prévia com profissionais. Nilmara foi uma jogada de marketing? Márgelo jura que não. "Ninguém aqui é bobinho de imaginar que não haveria repercussão, mas ela foi escolhida por estar comigo desde 2005 e saber melhor que ninguém o que eu quero fazer."

A história do clube começou há oito anos. Em 2004, Márgelo franqueou uma escolinha de futebol do São Caetano numa quadra de futebol soçaite em Guaratinguetá. Ganhou alguns campeonatos e ouviu de um empresário do ramo de supermercados que, se a escolinha virasse clube, teria a filiação na Federação assegurada - o que, àquela época, custava 60 000 reais. Ele registrou o Manthiqueira em cartório no dia do seu aniversário, 4 de agosto de 2005. Voltou a procurar o empresário, mas ouviu que não havia mais o interesse em investir no clube.

Márgelo, então, foi a São Paulo para tentar negociar com a federação, mas não teve jeito. Era 60 000 (que poderiam ser parcelados em dez cheques) ou nada. Voltou de ônibus para Guaratinguetá pensando no que diria para seus comandados. "Foi o segundo pior dia da minha vida. Uma frustração muito grande. Meu dinheiro já tinha acabado e tive de fechar o projeto." Todo mundo foi dispensado, inclusive Nilmara, que era assistente técnica do time. A quem perguntava, ele dizia que o time iria voltar, mas que não sabia quando. Ouvia que era mais fácil acreditar em Papai Noel.

SÃO NICOLAU

Eis que, em 2010, veio o tal dinheiro inesperado. Era uma bolada, e Márgelo não teve dúvidas. Manteve o padrão de vida que já tinha e investiu no Manthiqueira adormecido. "Comprei um terreno, fiz a filiação de 600 000 reais e comecei a trabalhar." O Manthiqueira estreou no ano passado (ficou em 35º na quarta divisão paulista), enquanto o CT ainda estava sendo construído. "A gente atropelou tudo. Sabíamos que não iríamos bem. Só jogamos porque o Guaratinguetá tinha deixado a cidade [foi para Americana]."

Agora com tudo pronto - o CT ganhou o nome de São Nicolau, em referência a Papai Noel -, ele pode fazer aquilo que tinha na cabeça. Com duas vitórias e um empate nos três primeiros jogos, o time tem chamado atenção. "O Guaratinguetá perdeu a identificação com a cidade", diz Carlinhos Brasil, empresário do setor de ferro, que visitou o Manthiqueira ao lado de um político local. Márgelo não esconde que agora busca patrocínio para poder manter o clube funcionando. E afirma que não é loucura investir em sua ideia.

"Tenho um sonho. Que um simples time, como esse aqui, possa ajudar as pessoas a compreender um pouco melhor a vida. Basta a gente tratar o futebol com uma filosofia diferente desta, de só buscar o resultado. Isso, sim, é loucura."

Marcado em: Revista Placar

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