As passagens por Corinthians e São Caetano foram apenas discretas. Mas quem se importa. Marcos Senna, 35 anos, é o primeiro e até então único jogador nascido no Brasil a ter a honra de levantar um Eurocopa.
O volante, que atualmente joga no Villarreal, recém-despromovido à segunda divisão da Espanha, é parte integrante de um processo que revolucionou o futebol espanhol. Foi logo após a sua naturalização que a Fúria mexeu as cadeiras e deu início a um novo estilo, substituindo medalhões e esquemas engessados a jovens valores e um modelo mais fluente de jogar bola. De política renovada, os espanhóis apagaram o fiasco da Copa-2006 - que Senna disputou também com a camisa vermelha - com os títulos da Euro-08 e, dois anos depois, da Copa do Mundo.
E é exatamente sobre o torneio continental disputado há quatro anos que Senna fala com orgulho. Em entrevista à PLACAR, o volante, titular e peça-chave naquela campanha, conta como a Espanha se achou para levar um troféu que não aparecia há 44 anos. Além disso, palpita sobre o time comandado por Vicente Del Bosque; fala sobre o comando dos baixinhos no time ibérico; a aposta em Fernando Torres; o naufrágio do 'Submarino Amarelo' e a falta de apetite em voltar para o Brasil.
Como foi faturar a Euro-2008, fato ainda inédito para um jogador nascido no Brasil?
A sensação era de máxima alegria. Nunca tinha conquistado um título de tanta expressão. E a seleção espanhola não ganhava nada havia 44 anos (o único título de peso da Espanha havia sido a Euro-1964).
O que foi fundamental para a Espanha se sagrar campeã naquela ocasião?
Para ganhar um campeonato é preciso juntar uma série de fatores. Um dos mais importantes foi a personalidade do (técnico) Luis Aragonés, que teve coragem para mudar o esquema de jogo de antes. Ele apostou em jogadores mais baixos e jovens, que haviam jogado a Copa de 2006, mas acabaram pecando pela juventude. Foi uma mescla boa: a juventude com alguns jogadores mais experientes. Foi aí que colocamos em prática o toque de bola rápido e envolvente, que na época ficou apelidado de 'tiki-taka'.
O esquema de jogo que antecedeu a Euro-2008 'prendia' a seleção espanhola?
Antes jogávamos com Raúl centralizado e dois jogadores de 'banda' (mais abertos pelos lados do campo), que eram , geralmente, Joaquín e Vicente. Na Euro-08, era só o Torres (como referência na área) e os meias vinham de trás. Foi assim também na Copa-2010. A Espanha passou a valorizar mais a posse de bola. (O novo estilo de jogo) surpreendeu a todo mundo. Ninguém esperava que a Espanha jogaria daquela foma na Euro-08.
O Raúl jogou as eliminatórias para aquela Euro, mas acabou ficando de fora da chamada final. Acha que com ele, que era tido como desagregador, a Espanha teria ido longe?
O objetivo de ganhar era único. Existia muita rivalidade entre os jogadores de Real e Barça, mas isso não afetou, Acho que com o Raúl ganharíamos do mesmo jeito.
Qual foi o maior desafio da Espanha na caminhada ao bicampeonato europeu?
Foi o jogo contra a Itália (pelas quartas de final). Aquela vitória nos deu muita moral para seguir adiante. Até porque é um rival tradicional. No final do jogo eu estava exausto, sem forças, mas a vitória nos pênaltis deu aquela sensação de alívio. [Nota da Redaçao: após empate em 0 x 0 no tempo regulamentar e na prorrogação, a Espanha bateu a Itália por 4 x 2 nos pênaltis; Senna converteu a terceira cobrança]
Quais os pontos fortes e fracos que separam o time de 2008 e o de agora?
É muito parecido. Não vejo tanta diferença entre os dois times. O estilo de jogar é o mesmo. Talvez hoje a seleção espanhola esteja mais manjada pelos adversários, e isso pode pesar contra. Na estreia da Euro (no último domingo, ante a Itália), conseguiram anular o Xavi, e o jogo não saiu tão bem. Se anularem Xavi e Iniesta, dificilmente a bola chegará ao Silva, que é o homem mais de frente. Mas vejo a Espanha com outras alternativas. Tem jogadores de lados do campo, centroavante grandalhão...
É adepto ao esquema sem-atacante promovido por Del Bosque contra a Itália?
Deu certo porque o Fabregas acabou marcando o gol. Ainda prefiro que jogue com um dos três centroavantes que estão no banco.
Das opções disponíveis, qual homem de área te agrada mais?
Os três são muito bons. O Negredo é eficiente com a cabeça e com os pés; o Llorente dificilmente perde uma bola aérea e o (Fernando) Torres, apesar das críticas, é um grande atacante e a qualquer momento pode decidir.
Escalaria qual dos três como titular?
Prefiro o Torres.
Além da Espanha, quem mais se candidata ao título europeu?
Vejo a Itália muito forte. A Alemanha é sempre favorita. Inglaterra e França também têm chances. A Holanda mereceu ganhar contra a Dinamarca, mas não foi felizes nas finalizações. Agora estão praticamente desclassificados.
Falando sobre a sua temporada, o que aconteceu para a queda brutal do Villarreal à segunda divisão espanhola?
Foi um ano difícil. Primeiro que na Liga dos Campeões caímos num grupo muito forte (Manchester City, Napoli e Bayern de Munique completavam a chave). Se tivéssemos jogadores melhores, teríamos outra sorte. Eu acabei me lesionando. Rossi e Nilmar, que formavam a dupla de ataque, se machucaram também. A queda do treinador dificultou as coisas. o outro técnico que assumiu também não deu certo. Não tínhamos um grupo para suportar essas competições. Ficamos sobrecarregados. Chegamos ao final do Espanhol com chances de nos livrarmos do rebaixamento, mas acabamos perdendo muitos pontos em casa nas rodadas finais. É uma pena porque o Villarreal é um clube muito estruturado, que é simpático por todos os torcedores na Espanha. Foi a maior frustração da minha carreira.
E o que te motivou a renovar por mais um ano com o clube?
A consideração que eles têm por mim e eu tenho por eles. Isso fez a diferença.
Pensa em voltar ao Brasil após 11 temporadas no futebol europeu?
Pensei. Mas voltar é um risco. Não quero trocar o certo pelo duvidoso. Há quatro anos que eu cogito (retornar ao futebol brasileiro) e o Villarreal renova. Minha família está completamente adaptada na Espanha. Está perfeito. Vou completar 36 anos. Pretendo jogar mais uns dois anos. No Brasil, seria considerado muito velho. Basta um jogo ruim e as críticas já aparecem. Tem que escutar que está 'velho'. Não estou disposto a isso. A paciência aqui no Brasil não existe.
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