Achou agressiva a frase acima? Pois, nos estádios gaúchos, gremistas e colorados tratam a questão como se não fosse racismo…

Fot abre da matéria: Ah, eu sou macaco!

Ilustração: Maurício Pierro

Decisão do Campeonato Gaúcho de 2011, Estádio Olímpico. O Grêmio, que já havia vencido o primeiro jogo, começa o Grenal com 1 x 0, toma a virada e perde o título na decisão por pênaltis. Pior que perder a partida — e o campeonato para o Internacional —, foi perder a compostura. Ainda no primeiro tempo, o técnico Falcão resolveu colocar em campo o atacante Zé Roberto. Quando aquecia, o jogador goiano começou a ouvir um som da torcida. Parecia uma imitação de macaco. Zé Roberto é negro. Sem acreditar, o atacante perguntou aos companheiros de time se estavam ouvindo aquilo mesmo. Os colorados responderam que sim, que era normal isso acontecer no Sul.

Não estavam mentindo. O Juventude já coleciona dois episódios por atos racistas. Em um deles, o então zagueiro Antônio Carlos fez um gesto se referindo à cor da pele do volante Jeovânio, do Grêmio. Antônio Carlos tem a pele clara. Jeovânio, escura. Em outro, torcedores imitavam macacos quando o colorado Tinga tocava na bola. O Grêmio foi acusado de hostilizar Elicarlos, do Cruzeiro, na Libertadores de 2008. Elicarlos é negro. Recentemente, houve até um racha na torcida Geral do Grêmio. Entre os motivos apontados para a discórdia estaria a colocação de bandeiras com as figuras de Lupicínio Rodrigues e de Everaldo, que teriam sido vetadas por eles serem negros. De fato, as bandeiras só são vistas no setor da “dissidência”.

Não se pode dizer que sejam casos isolados. A cor da pele sempre foi, no Brasil — e em especial no Rio Grande do Sul, um dos estados da federação com menos negros —, uma maneira de diferenciar o outro. Aquele “negão”, o “crioulo” da farmácia, o “pretinho” da escola. O inverso não é exatamente verdadeiro. O “brancão” da farmácia ou o “clarinho” da escola não são modos corriqueiros de se referir a alguém.

Ah, eu sou macaco!

Ilustação: Maurício Pierro

Os próprios colorados ofereceram aos rivais a argumentação de que "Não há nada de mais" em chamar outro ser humano de macaco

No futebol, o gaúcho nunca teve muita cerimônia para usar a cor da pele na diferenciação dos clubes. O Grêmio representava a elite; o Internacional, mais popular, virou “time de negão”. Com o passar dos anos, ficou tudo muito parecido. O Grêmio conquistou torcedores nas camadas menos favorecidas, o Internacional arregimentou fãs nas elites. Mas o tema branco e preto seguiu sempre na pauta das arquibancadas.

É aí que entra a história da “macacada”. Pelo mundo afora, não há símbolo maior de discriminação racial que chamar alguém de macaco. A ofensa é universal, ela pode ser entendida na Finlândia, na Austrália ou no Sri Lanka. A ligação é direta, a cor escura da pele deixa claro que macaco, no caso, é igual a negro. O rebaixamento é evidente, o negro é desalojado da condição de ser humano para virar bicho. A ideia passa por aí. E tudo tão fácil de demonstrar, um gutural “uh, uh, uh” ou uma banana jogada fazem com que a mensagem seja percebida na hora.

No futebol europeu, manifestações de racismo são sinônimos de confusão. O negro camaronês Samuel Eto’o fez o jogo parar quando ouviu da arquibancada do Getafe um “uh, uh, uh”. O Getafe foi punido. Roberto Carlos, branco para o padrão brasileiro e negro para o europeu, foi também vítima de racismo. Recebeu de presente uma banana de um torcedor do Zenit, da Rússia. Virou escândalo internacional.

No Rio Grande do Sul, os macacos pulam livremente de galho em galho. A questão racial se aprofunda quando a rivalidade entra em campo. O Internacional se tornou o time da macacada. Muito gremista se refere, sem qualquer traço de constrangimento, ao Inter como “os macacos”. A “macacada” aparece na letra de alguns cânticos tricolores.

Uma parte da torcida colorada até incorporou a “brincadeira”. E há bandeiras com um macaco colorado. A própria diretoria, para se salvar no politicamente correto, resolveu demitir o Saci do emprego de mascote das categorias de base. Perneta e com seu cachimbo inseparável, ele poderia estar relacionado ao fumo e até ao consumo de crack. A solução foi curiosa. A mascote escolhida foi o macaquinho, e seu nome foi escolhido por votação. Escurinho, um ídolo negro dos anos 70, batizou o macaquinho. Assim, os próprios colorados ofereceram aos rivais a argumentação de que “não há nada de mais” em chamar outro ser humano de macaco. Tudo normalíssimo.

O caso específico de Zé Roberto provavelmente dará em nada. A enésima imitação de macaco tem tudo para cair no esquecimento. Enquanto isso, os pais torcedores seguirão em domingos ensolarados de estádio ensinando aos filhos o quão saudável e divertida é a brincadeira. E o Rio Grande do Sul seguirá espantando quem vem de fora e não acha tão normal esse “uh, uh, uh”.