Indefinições e atrasos nas obras da arena do Corinthians colocam em xeque a abertura em São Paulo e deixam estádios dos rivais de sobreaviso

A pedra fundamental do estádio do Corinthians foi lançada. Há 28 anos… Exatamente no mesmo terreno em Itaquera, zona leste de São Paulo — cedido pela prefeitura à época em que o clube
era administrado por Vicente Matheus —, onde o atual mandatário, Andrés Sanchez, proclamou no último dia 30 de maio o início das obras da arena que pretende receber a abertura da Copa 2014. A bravata do estádio corintiano nasceu em 1983. Durante a gestão de Waldemar Pires, o clube anunciou um projeto para abrigar 200 000 torcedores. Que nunca saiu do papel.

No entanto, a ideia voltou a ser resgatada em junho de 2010. Andrés Sanchez estreitou o relacionamento com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Foi convidado para chefiar a delegação brasileira na Copa da A África do Sul. No mesmo período, o Morumbi, até então o estádio oficial de São Paulo para 2014, acabou descartado. O caminho estava aberto para reativar o antigo sonho dos corintianos. Em setembro, o Comitê Organizador Local (COL) oficializou que o projeto do estádio do Corinthians representaria a capital paulista na Copa do Mundo.

Terreno do Itaquerão

FOTO: Arquivo Placar

Terreno do Corinthians na região de Itaquera ainda está em fase de terraplanagem

A três anos do Mundial, entretanto, a arena ainda não deslanchou. Além dos atrasos para conseguir liberar o terreno de 200000 metros quadrados com a prefeitura, Corinthians e Comitê Paulista encaram os efeitos da insistência com o Morumbi, que só foi desacreditado quase três anos após a decisão da Fifa de sediar a Copa 2014 no Brasil. Todo o planejamento que vinha sendo conduzido por prefeitura e governo de São Paulo focava o estádio tricolor.

Um dos pilares em infraestrutura para a cidade, inclusive, é o monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas ao Morumbi. Apesar de o projeto estar embargado na Justiça, a inauguração do trecho de 6 km segue prevista para 2014. Dirigentes do clube tricolor apoiam o monotrilho e destacam que o estádio, após as reformas que devem ser concluídas no começo de 2012, terá condições
de receber jogos da Copa. “Trabalhamos desde 2008 para atender ao caderno de encargos da Fifa. A decisão de excluir o Morumbi foi uma imposição política e econômica do COL e do presidente da CBF”, afirma José Francisco Manssur, assessor da presidência do São Paulo e chefe do Comitê Morumbi 2014.

Maquete do Itaquerão

FOTO: divulgação

o projeto do estádio de 65000 lugares para a abertura da copa está atrasado e ainda não tem garantia financeira

Atrasado, o projeto do Itaquerão está longe de engrenar. Corinthians e Odebrecht, construtora responsável pela terraplanagem do terreno, divergem sobre o orçamento das obras. O primeiro levantamento da empresa apontava um custo de 1,07 bilhão de reais, que, em seguida, caiu para 800 milhões. Pega de surpresa com o alto valor apresentado pela Odebrecht, a cúpula do clube insiste em baixar a conta para 700 milhões. Enquanto não chegam a um acordo, o Corinthians fica impedido de assinar contrato para requerer o empréstimo de 400 milhões ao BNDES. Outras empreiteiras
já apresentaram orçamentos de até 500 milhões para executar o projeto, mas o clube teme que uma nova parceira não consiga apresentar as garantias financeiras exigidas para o financiamento da obra.

O projeto do Itaquerão ainda demanda intervenções engenhosas, que contribuem para aumentar a incerteza sobre sua entrega. Dutos da Petrobras que atravessam o subsolo do terreno precisam ser
desviados para as margens de um condomínio residencial vizinho à obra. O custo estimado do procedimento beira os 30 milhões de reais. Questionado a respeito de quem arcaria com o desvio dos dutos, o diretor de marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosenberg, é lacônico: “O tempo dirá”, limita-se a dizer.

Embora o clube tenha conseguido as licenças necessárias para livrarse dos dutos e sustente que eles não afetarão o processo de terraplanagem, o Ministério Público Federal enviou ofício à Petrobras exigindo que a estatal defina os termos de responsabilidade pelo reposicionamento das tubulações e interrompa a obra no local — por questões de segurança e para evitar que a estatal favoreça um empreendimento privado com recursos públicos. Um córrego, que passa sob a parte do terreno que receberá um dos jogos de arquibancada do estádio, pode travar ainda mais o processo. O atraso das obras em Itaquera fez com que o Corinthians decretasse a conclusão do estádio para o fim de 2013. Com isso, a Fifa excluiu São Paulo da Copa das Confederações. “A chance de a Fifa rever essa decisão é muito baixa, já que a Copa das Confederações serve para testar as arenas que abrigarão a Copa do Mundo”, diz Emanuel Fernandes, secretário de planejamento do governo e coordenador do Comitê Estadual da Copa.

DERRAPAGEM EM CUMBICA

Aeroporto de cumbica

FOTO: Patrícia Santos

Cumbica será privatizado em 2012

Localizado a 30 minutos do futuro estádio do Corinthians, o Aeroporto Internacional de Guarulhos (Cumbica) é o mais movimentado do país e será a principal porta de entrada de turistas e delegações durante a Copa do Mundo. O fluxo anual de 27 milhões de passageiros é incompatível com a estrutura do aeroporto, que opera acima de sua capacidade — 20,5 milhões de passageiros. A obra de construção do novo terminal prevista pela Infraero, que ampliará a capacidade de Cumbica para 35 milhões de passageiros, ainda não começou e acumula quase um ano e meio de atraso. “O aeroporto de Guarulhos será o mais requisitado na Copa. Por isso, vamos facilitar o deslocamento para as vias que o integram a Itaquera”, afirma o secretário municipal de articulação da Copa 2014, Gilmar Tadeu Ribeiro. Do início do ano para cá, o custo da reforma das pistas de táxi em Cumbica pulou de 20 milhões para 70,9 milhões de reais. Para evitar um vexame, o governo federal decidiu privatizar os aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília.

Do outro lado da cidade, alheio à decisão da Fifa, o Palmeiras acelera as obras de modernização do antigo Parque Antártica. A futura arena Palestra Itália, calculada em 350 milhões de reais, vai abrigar 45000 torcedores e, de acordo com o planejamento do clube e da WTorre, construtora encarregada do projeto, será inaugurada em abril de 2013, dois meses antes da Copa das Confederações.
“Estamos cumprindo bem o cronograma. Se o COL precisar, nossa arena estará disponível para o torneio”, afirma o diretor da WTorre, Rogério Dezembro. De olho em uma brecha para ver seu estádio ao menos na Copa das Confederações, o Palmeiras também vai requisitar incentivos fiscais e abatimento de impostos à prefeitura, com base no precedente aberto pelo estádio do Corinthians em Itaquera.

Frente do Morumbi

FOTO: Renato Pizzutto

Morumbi foi excluído da Copa durante o mundial da África do sul, no ano passado, após o são paulo rejeitar instrução do Col para rebaixar o gramado do estádio e praticamente dobrar o orçamento estimado em 256 milhões de reais

Se o estádio do rival continuar empacado, o clube alviverde quer ver a Copa do Mundo cair no colo da Arena Palestra — assim como vislumbra o São Paulo, com o Morumbi —, mesmo que não atenda às exigências da Fifa para o jogo inaugural do Mundial. O Comitê Paulista, no entanto, garante não ter um plano B ao Itaquerão. O Corinthians tampouco considera a possibilidade de rever seu projeto caso a abertura seja concedida a outra cidade-sede. “Não trabalhamos com essa hipótese. A Fifa já está convencida de que a única locação desejável para a abertura é São Paulo”, diz Rosenberg.

O destino da cidade mais rica do país na Copa deve ser decidido no próximo dia 29 de julho, quando membros da Fifa estarão no Brasil para o sorteio das chaves das Eliminatórias e para anunciar a sede de abertura de 2014. Em qual estádio? Em qual cidade? A que preço? Quem pagará a conta? “O tempo dirá”…


VEREDICTO PLACAR
Após visitar a cidade, conhecer os projetos e ouvir a opinião de especialistas de diversas áreas, PLACAR avalia os itens mais importantes do projeto de São Paulo para 2014

Legenda:
BEM RESOLVIDO EXIGE ATENÇÃO PREOCUPANTE

MOBILIDADE URBANA
O trânsito caótico, combinado a uma das malhas metroviárias mais saturadas do mundo, faz a cidade correr contra o tempo para não entrar em colapso durante a Copa. A linha 3 do Metrô, que já opera com 12,5% acima de sua capacidade no horário de pico, liga a região central a Itaquera e termina na estação que dá acesso ao futuro estádio. A instalação do Communication Based Train Control (CBTC), que deve ser finalizada no fim de 2012, já foi testada e pode reduzir o intervalo entre trens de 90 para 82 segundos, ampliando a capacidade da linha em até 25%. Uma parceria entre prefeitura e governo ainda prevê um pacote de 478,2 milhões de reais para obras viárias na região de Itaquera, com duração até junho de 2013.

ESTÁDIO
Inicialmente planejado para abrigar 48 000 torcedores, o projeto da arena do Corinthians cresceu para 65 000 lugares em cumprimento às exigências da Fifa para a sede de abertura do Mundial. No entanto, o clube demorou a conseguir a liberação do terreno junto à prefeitura, tornando São Paulo a segunda cidade mais atrasada entre as sedes. A terraplanagem da área onde será erguido o estádio só começou no fim de maio. Porém, dutos da Petrobras e a indefinição sobre o orçamento do estádio — estipulado em 800 milhões de reais — podem atrasar ainda mais a obra. Caso o Corinthians não consiga fechar com uma empreiteira e apresentar as garantias financeiras para tocar o projeto até julho, São Paulo corre o risco de perder o jogo de estreia da Copa.

ESTRADAS
Os principais corredores de transporte de mercadorias do Sudeste passam pela cidade, que está em posição estratégica na região. Segundo a última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, o estado de São Paulo tem as melhores rodovias do país. O projeto do trem-bala, que ligará São Paulo ao Rio de Janeiro e pode diminuir a dependência do transporte rodoviário, segue somente no papel.

CAMPOS DE TREINAMENTO
Entre os campos oficiais de treinamento disponíveis na cidade está o estádio do Pacaembu, que pertence à prefeitura. Também foram indicados os centros de treinamento de Corinthians e Portuguesa, no Parque Ecológico do Tietê, Palmeiras e São Paulo, na Barra Funda, além do CT do Pão de Açúcar, que fica próximo ao Morumbi. O estado paulista é ainda o que mais indicou centros de treinamento para abrigar seleções durante o Mundial. Foram incluídos na lista 64 locais, entre eles o CT Rei Pelé e a Vila Belmiro, do Santos, o Canindé, da Portuguesa, e o Brinco de Ouro, do Guarani.

LAZER E TURISMO
Capital financeira e corporativa do país, São Paulo também pode ser considerada a metrópole brasileira da gastronomia e da diversidade cultural. Mais de 50 tipos de culinária são contemplados no cardápio da cidade, concentrados principalmente no reduto de bares e restaurantes da Vila Madalena, na zona oeste. O leque de opções aos turistas ainda conta com o Parque Ibirapuera, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o centenário Theatro Municipal, palco da Semana de Arte Moderna de 1922, que foi reinaugurado em junho após três anos fechado para reformas.

HOTELARIA

Apesar de conviver com a falta de vagas devido à realização de feiras e eventos simultâneos, a cidade dispõe da maior rede hoteleira do Brasil, com 42000 quartos e 105 000 leitos — mais que o dobro do Rio de Janeiro, que vem em segundo lugar, com 46000 leitos. Grande parte das acomodações dos hotéis atende aos padrões exigidos pela Fifa, representando um dos maiores trunfos da cidade para conseguir a abertura da Copa. Como pano de fundo à construção do estádio do Corinthians, governo e prefeitura pretendem estimular a iniciativa privada a construir novos hotéis na região de Itaquera e do aeroporto de Guarulhos.

AEROPORTO

A Infraero promete investir mais de 1 bilhão de reais no aeroporto de Guarulhos, mas ainda não tirou nada do papel além da incipiente terraplanagem do terreno onde será construído um terceiro terminal de passageiros. Já para o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, estão previstos 742 milhões de reais. Porém, as principais intervenções estão em licitação.

VIABILIDADE FINANCEIRA
São Paulo dispõe do maior investimento previsto para uma cidade-sede (5,34 bilhões de reais), mas corre o risco de entornar dinheiro devido a boa parte das obras de infraestrutura estar emperrada na Justiça ou correndo em atraso. O gargalo é o estádio do Corinthians, que irá receber, através dos CIDs (Comprovante de Incentivo ao Desenvolvimento) de Itaquera, até 420 milhões de reais em descontos de impostos da prefeitura. Se aprovada no Congresso, a medida que permite ingerência da Fifa nas obras pode fazer a contrapartida pública no estádio bater na casa de 1 bilhão de reais.

SEGURANÇA
O índice de assassinatos caiu na capital paulista, de acordo com o último levantamento do governo. Mas o número de furtos e roubos aumentou. A insegurança na cidade também cresceu com a onda
de arrastões em restaurantes e assaltos a caixas eletrônicos registrados neste ano.

LEGADO
As heranças pós-Copa mais significativas em infraestrutura para a cidade, como o monotrilho e a ampliação do aeroporto de Cumbica, continuam sendo uma incógnita. Tal qual a definição se os paulistas receberão o jogo inaugural ou se até mesmo verão o Mundial escapar pelas mãos.