Obras no Maracanã enfrentam sucessivas greves nos últimos meses

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Indefinição do palco de abertura do Mundial no Brasil é preocupante; para piorar, obras no Maracanã enfrentam sucessivas greves nos últimos meses

Uma boa maneira de avaliar a preparação do Brasil para a Copa 2014 é tentar imaginar o dia 12 de junho de 2014, a quinta-feira em que será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo. É possível afirmar que estarão presentes a presidenta Dilma Roussef, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. É possível também prever a presença de jogadores como Neymar e – até segunda ordem – do técnico Mano Menezes. Mas, a exatos 1000 dias do Mundial, ainda não se pode imaginar com exatidão um palco para estes atores. O Brasil sequer definiu oficialmente o local da partida inaugural de sua Copa.

A indefinição sobre a abertura a essa altura não seria preocupante se fosse regra entre os países que sediaram Copas. Não é o caso. Em setembro de 2003, os alemães já sabiam há algum tempo que a primeira partida da Copa de 2006 seria na Allianz Arena – cuja construção foi decidida por um plebiscito entre os cidadãos de Munique. Em setembro de 2003, Johanesburgo já construía o Soccer City com a certeza de que a abertura da Copa 2010 seria realizada no estádio. Embora o intervalo de quatro anos entre os Mundiais possa levar a alguma distorção, este é um bom caminho para avaliar o estágio em que se encontra a preparação brasileira a 1000 dias da Copa de 2014. Como estavam Alemanha e África do Sul no mesmo período?

Antes de tudo, é preciso lembrar que o Brasil planejou uma Copa do Mundo ambiciosa, que demandaria uma enorme quantidade de investimentos simultâneos. O projeto de 2014 nasceu com aspirações alemãs: os estádios seriam construídos pela iniciativa privada, ao passo que o governo tiraria da gaveta obras de infraestrutura. Aos poucos, o projeto brasileiro foi tomando formas sul-africanas, com estádios bancados pelos cofres públicos e projetos de mobilidade urbana cada dia mais modestos, adaptados a verbas e prazos curtos.

Maquete do estádio do Corinthians, em Itaquera

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A maioria dos estádios para a Copa 2014 será construída do zero, como o do Corinthians, em São Paulo

Em que pese a preocupação com os estádios, não há grandes motivos para se preocupar com a entrega das obras. A impressão que se tem é que o Brasil está atrás da Alemanha e até da África do Sul, por uma razão óbvia: o país de fato largou atrás das últimas sedes do Mundial. Não bastasse o fato de ter 12 estádios – quando oito seriam suficientes, de acordo com a própria Fifa –, quase todos serão construídos do zero, ou passarão por reformas radicais. De Maracanã e Mineirão, só restarão fachadas como lembrança dos estádios originais. Mesmo Arena da Baixada e Beira-Rio, que a princípio seriam submetidos a reformas leves, sofrerão intervenções significativas para se adequar ao caderno de encargos da Fifa – que é mais exigente que o das Copas anteriores.

A 1000 dias da Copa 2006, os estádios de Hamburgo e Gelsenkirchen já estavam inteiramente prontos. As obras do estádio Olímpico de Berlim, que passou por uma reforma bem parecida com a do Maracanã, já estavam em estágio avançado – os trabalhos começaram em 2000, e seriam concluídos em julho de 2004. Não à toa, a Alemanha já tinha sete estádios concluídos em junho de 2005, à disposição da Fifa para a Copa das Confederações. A Allianz Arena, estádio mais badalado da Copa, começou a ser construída no fim de 2002 e foi concluída em abril de 2005. Diferentemente do Brasil, que precisa erguer praticamente todos seus estádios, os trabalhos na Alemanha foram basicamente de reforma e readequação aos padrões da Fifa – a maioria deles conduzidos pela iniciativa privada.

Em setembro de 2007, a situação das obras na África do Sul não era muito mais animadora que a do Brasil. Alguns dos principais estádios haviam iniciado suas obras apenas naquele ano, e já começavam a estourar os primeiros movimentos de greves de operários. Mas os sul-africanos também largaram com certa vantagem em relação ao Brasil: dos dez estádios escolhidos para o Mundial, quatro já estavam prontos e passaram por reformas bem mais leves, para adequá-los a um caderno de encargos bem menos rigoroso que o da Copa brasileira. O estádio de Port Elizabeth, único entre os novos que seria utilizado na Copa das Confederações, não ficou pronto no tempo esperado. As arenas inteiramente novas foram entregues entre o fim de 2009 e o início de 2010.

No Brasil, as cidades cujos estádios mais preocupam são Natal e São Paulo, cujas obras só começaram recentemente, e Curitiba, que só iniciará os trabalhos em outubro. Aos poucos, os enormes canteiros de terra começam a ganhar formas de arquibancadas, como em Brasília, Cuiabá e Manaus. A maior parte dos estados garante que conseguirá entregar suas arenas entre o fim de 2012 e o início de 2013, embora em algumas pareça improvável. Ainda há tempo hábil e capacidade técnica; a grande questão passa a ser de que maneira o prazo exíguo irá inflacionar os orçamentos das obras.

Por ser o centro das atenções, os estádios têm merecido total dedicação dos governos, que não medem esforços (e recursos) para viabilizá-los. O mesmo não se pode dizer da infraestrutura de transporte e mobilidade urbana. As prometidas obras para os portos sequer começaram. Os aeroportos brasileiros não são uma questão para 2014, senão um problema imediato. De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 17 dos 20 principais aeroportos do país já operam acima de sua capacidade. Dos 13 terminais utilizados na Copa, 10 não ficariam prontos a tempo.

A 1000 dias do Mundial, as obras dos aeroportos brasileiros ainda estão longe de decolar. Reformas em aeroportos demandam planejamento e, sobretudo, tempo: o Rio de Janeiro pode interromper as atividades do Maracanã para reformá-lo, mas não pode fazer o mesmo com o Galeão. A dependência do transporte aéreo é potencializada pelas dimensões continentais do país. Só é possível chegar a Manaus, por exemplo, por avião ou barco. Neste ponto, é quase impossível comparar a Copa brasileira com as anteriores: a Alemanha possui o mesmo tamanho que o estado do Mato Grosso do Sul, enquanto a África do Sul tem dimensões parecidas com o Pará.

Em setembro de 2003, a Alemanha dividia seus investimentos entre construção de rodovias, reformas no eficiente sistema de trens que corta o país e melhorias no acesso aos estádios. Os alemães não precisavam se preocupar com seus aeroportos, que já estavam aptos a receber confortavelmente a demanda de turistas. Dois deles, o de Frankfurt e Munique, estão entre os melhores do mundo.

Na África do Sul, o transporte aéreo teve papel importante, mas ainda assim nada que se compare ao Brasil. A maioria das sedes estava situada a distâncias rodoviárias razoáveis de Johanesburgo, principal hub aéreo do continente. Em setembro de 2007, os africanos já conduziam reformas nos aeroportos de Joanesburgo e Cidade do Cabo, e haviam acabado de começar a construção de um novo aeroporto internacional em Durban. Todos ficaram prontos a tempo de receber os turistas do Mundial – e deixariam as paredes do aeroporto de Guarulhos coradas de vergonha.

Obras para a mobilidade urbana no Mundial do Brasil estão em nível preocupante

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Obras para a mobilidade urbana no Mundial do Brasil estão em nível preocupante, e é possível que muitos projetos não saiam do papel a tempo, como na África do Sul

No que diz respeito à mobilidade urbana, a Copa da África foi um verdadeiro fiasco. A 1000 dias do Mundial, muitos projetos de transporte sul-africano ainda estavam no papel – e assim permaneceram. O Gautrain, trem de alta velocidade que ligaria o aeroporto a Johanesburgo e Pretória, só começou a funcionar de fato um ano após a Copa. Durante o Mundial, viam-se obras inacabadas em algumas cidades, como corredores de ônibus que foram abortados pelo governo.

No caso do Brasil, muitas das obras de mobilidade urbana correm o risco de ter o mesmo destino das sul-africanas. O atual sistema de transporte das cidades brasileiras é superior ao da África do Sul – o que não chega a ser uma vantagem em si. Jamais se admitirá isso publicamente, mas a prioridade do governo são os estádios. A África do Sul provou que mobilidade urbana não é primordial para a realização de uma Copa.

A cada obra descartada pelos governos ou prefeituras, seja por falta de tempo ou de recursos, perde-se um pouco do que o Brasil teria de mais precioso com a Copa de 2014: legado. A Alemanha usou sua Copa para abrir as portas do país para o turismo; a África do Sul, para cicatrizar feridas do Apartheid e mostrar que o povo africano é capaz de realizar grandes eventos. Sem um legado bem definido, o Brasil ainda parece não saber que história terá para contar ao mundo após as próximas 1001 noites.