Com a aposentadoria de Ronaldo, perdemos nosso segundo maior goleador e o mais técnico deles, sem que encontrássemos um substituto. Sorte dos veteranos sobreviventes do gol…

Noves fora: o sumiço do artilheiro

Ilustração: Jonatan Sarmento

Nossos artilheiros envelheceram e, como consequência, estão parando. Em dois meses, dois dos dez maiores goleadores do país penduraram as chuteiras.

Washington foi o primeiro. Às lágrimas, o maior artilheiro em uma edição de Brasileiro (34 gols em 2004) anunciou em janeiro sua despedida. O Coração Valente tem 35 anos, um a mais que Ronaldo. O Fenômeno parou em seguida, em uma decisão programada para dezembro, mas antecipada pelo desastre corintiano na Libertadores (desclassificado antes da fase de grupos) e por uma nova lesão. Aos 34 anos, marcou 473 gols.

“Esse último ano foi péssimo, de muitas lesões, e comecei o ano assim também com lesões. A sua cabeça pensa uma coisa, você vai driblar o zagueiro, achando que vai ganhar na velocidade, porque sempre fez isso, e não consegue. Foi o que me motivou”, disse o Fenômeno na coletiva em que anunciou o fim de sua carreira.

Com ele, o Brasil aposentou também seu último grande camisa 9, o segundo na lista dos maiores artilheiros em atividade — perdia para o eterno e incansável Túlio, 41, na busca pelo milésimo gol em sua contagem particular (PLACAR conta “só” 777). Ronaldo, em menos de três anos como profissional, já tinha mais de 100 gols na carreira. Antes de completar 20 anos, contabilizava 200 finalizações na rede. Não é pouco.

Torcer pelo surgimento do “novo Ronaldo” é tão inglório quanto nossos desejos secretos de um novo Pelé, aquela mania que resolvemos abandonar em 1994, quando conquistamos o tetra. Em seis anos, desde a publicação do último ranking de artilheiros de PLACAR, 36 dos 50 maiores artilheiros do país se aposentaram. Em 2005, 30 tinham mais de 200 gols. Neste ano, apenas 18 passaram a marca. E os novos ainda não convenceram.

“Se a Copa fosse hoje, o melhor centroavante ainda seria o Luís Fabiano — não há dúvida nenhuma. Mas, como ele já está com idade avançada, e não está num momento bom, é correto tentar outro. Mas não tem”, analisa Tostão, camisa 9 na Copa de 1970.

Ronaldo e Washinton anunciaram aposentadoria em 2011

Fotos: Alexandre Battibugli | Photocamera

Ronaldo e Washington deram adeus aos gramados neste 2011

O Fabuloso, sucessor de Ronaldo na Copa da África do Sul, entrou recentemente na lista dos dez mais. Mas completou 30 anos em dezembro e terá 33 anos em 2014, mesma idade do Fenômeno no ano passado, quando foi preterido por Dunga. O jogador entende essa limitação. “Gostaria de ter 27, 28 anos em 2014”, diz. “Vai depender do meu estado físico, mas, se eu me cuidar, tenho totais condições de jogar bem”, afirma Luís Fabiano.

Como convencer um treinador de que um atacante nessa idade poderá definir um Mundial? A história das 19 Copas mostra que os convocados para o ataque tinham, no máximo, 30 anos. Quase sempre o jogador vai no limite dessa idade. Ademir de Menezes puxou, em 1950, a fila que também teve Vavá, em 1962; Pelé, em 1970; Careca, em 1990; Romário, em 1994; e Luís Fabiano, em 2010 — todos com entre 27 e 29 anos.

[Essa idade] é o auge do jogador de futebol”, afirma o fisiologista Turíbio Leite de Barros, especialista em esporte. “É a idade em que reúne a manutenção da forma física com o amadurecimento técnico. A partir dos 30 anos, é consenso que o rendimento do atleta cai.”

Em 2014, dois atacantes estarão nessa faixa. Fred e Vágner Love completam 30 anos antes do Mundial. Os dois têm oito anos de futebol profissional. O primeiro já foi a uma Copa, a de 2006, e fez um gol. Love, testado por Dunga, não convenceu. “Se vestisse a camisa da seleção, seria diferente do que foi há três, quatro anos. Estou mais adaptado e com mais inteligência: corro na hora certa e tenho mais tranquilidade nas finalizações”, afirma o ex-flamenguista, hoje no CSKA da Rússia.

Ambos ainda não atingiram a barreira dos 200 gols. Love é o que está mais próximo — com 191 gols, é o 20º melhor marcador em atividade e o mais jovem da lista. Fred ainda tem um currículo limitado, até por ter sofrido mais com lesões que o atacante do CSKA. Eram 174 gols até a semifinal da Taça Guanabara deste ano.

“Hoje, o centroavante bom é o Fred. É um cara técnico, que sabe tabelar e que vai bem de cabeça. É o melhor que a gente tem aí”, diz Dodô, 36 anos, sexto maior artilheiro em atividade com 335 gols. “E vai estar na idade perfeita para jogar a Copa.”

O NOVO CENTROAVANTE
Fred é o exemplo que resta da linhagem de centroavantes técnicos e bons finalizadores, que começou com Reinaldo e teve Careca, Romário e Ronaldo como sucessores. Mano Menezes tem testado diversas formações de ataque, mas nenhuma ainda com Fred. Ao lado de Neymar, já colocou Alexandre Pato, Hulk, André e Nilmar. As experiências estão no início, mas Mano não dá pistas de qual deles prefere.

Pato salta na frente pela experiência internacional, embora sua carta de gols ainda seja tímida — 65 gols em cinco temporadas, pouco para exigir dele o dom dos goleadores. “Ainda há esperança de que o Pato possa crescer, mas não acho que ele vá passar muito disso. É um bom jogador… Mas não vejo ele se tornando um… nem estou falando em jogar igual a Romário ou Ronaldo, mas um jogador excepcional”, avalia Tostão, para quem não há no Brasil um atacante extraclasse que se destaque dos demais espalhados pelo mundo.

Neymar e Pato são de uma safra de atacantes diferentes do clássico camisa 9

Fotos: Renato Pizzutto | Pier Giavelli

Neymar e Pato são de uma safra de atacantes diferentes do clássico camisa 9

Todos esses candidatos sinalizam o estilo consolidado nas últimas duas décadas — menos fixo na área e que costuma sair mais para buscar o jogo. “O esquema tático das seleções, inclusive as de base, prioriza os atacantes rápidos, que chegam com a bola até a área”, diz Deivid, 255 gols, um segundo atacante que virou referência de jogador de área no Flamengo, meio a contragosto. Ele cita William José, da seleção sub-20 campeã sul-americana no Peru, mas que não é tão goleador como Neymar ou o meia-atacante Lucas.

“Antigamente, esse jogador era mais um finalizador, e o time jogava em função dele. Se não fizesse o gol, sumia em campo. Aqui na Europa, se ele não se movimenta, fica fora do time”, diz Luís Fabiano, que demorou a se adaptar ao futebol do velho continente — teve passagens apagadas pelo francês Rennes e pelo Porto antes de brilhar no espanhol Sevilla. “O jogador tem que estar preparado para a mudança e para mudar também. Não adianta chegar com a cabeça do jogador brasileiro, não aceitar ficar no banco e já querer ir embora, de achar que o time tem que se enquadrar ao futebol dele, e não ele ao futebol do time.”

Até 2014, mais candidatos vão ficar pelo caminho. Vejamos o exemplo de 2009, um ano antes da Copa. Keirrison era o craque promissor da vez. Havia feito 84 gols em menos de três temporadas, a última delas pelo Palmeiras. Negociado com o Barcelona, passou por outros dois clubes (Benfica e Fiorentina) em pouco mais de um ano. Marcou apenas 12 gols. Voltou em 2010 ao Santos, sem no entanto reencontrar o velho ímpeto. O ex-santista André foi a última vítima da seca de gols pós-negociação. Na Ucrânia, atuando pelo Dynamo Kiev, participou de apenas três jogos em um semestre.

Mesmo no Brasil, essa desconfiança sobre a eficiência dos jogadores mais novos tem forçado os clubes a procurarem atletas mais experientes. Isso explica o domínio dos trintões nas listas de maiores goleadores. O Corinthians trouxe o “aportuguesado” Liédson, 33, um artilheiro tardio que surgiu aos 23 anos no Prudentópolis do Paraná. Em menos de dez temporadas, já figura entre os dez maiores com 268 gols, mais do que Luís Fabiano e Adriano — mais novos, mas com mais tempo de carreira. Clubes pequenos seguem apostando em veteranos. Finazzi, 37 anos e 167 gols, reina no interior paulista, contratado pelo Bragantino. Sandro Sottilli, da mesma idade, é uma espécie de Midas do Gaúchão. Tem 156 gols.

A resposta fica para Dodô, mais conhecido por seus gols plásticos que pelo (bom) faro de artilheiro. “Vou fazer 37 anos e ainda sou importante. É um sinal de que não apareceram jogadores que resolvam e com condições de fazer gols em maior número. Você vem de Careca, Romário e Ronaldo. Como não ter cobrança para cima desses caras?”

ARTILHEIROS
O incansável Túlio, aos 41 anos, segue como maior goleador em atividade

Noves fora: artilheiros da atualidade
Túlio continua a perseguição de seu gol 1000. Aos 41 anos, ele estabeleceu uma conta em que gols não contabilizados pelos clubes entram na soma. PLACAR levantou 777 gols do centroavante do Botafogo-DF, suficientes para ser o maior goleador em atividade. “No início, eu era um centroavante de área, com mais combatividade. Hoje, eu procuro me posicionar bem”, diz o artilheiro, que diz ter 950 gols e não encerra a carreira enquanto não alcançar o milhar.

PROMESSAS
O que falta para Neymar e Pato emplacarem no ataque da seleção?

É quase um consenso: Neymar está garantido no ataque da Copa de 2014. Só perde o lugar se uma zebra gigantesca acontecer até lá — como aparecer um jogador com melhor competência técnica ou uma repetina má fase do craque.

Em duas temporadas, Neymar fez 56 gols, com destaque para a última, quando foi o maior artilheiro do país ao lado de Jonas, com 42 gols. E seu parceiro de ataque, quem seria? Alexandre Pato parece ser o nome, mas ainda falta convencer.

Tem uma média de gols baixa para as cinco temporadas de que participou. São 65 gols, média de 13 por ano. Para Tostão, ainda não existe esse jogador para atuar ao lado de Neymar na seleção. “O Pato, o Fred, o Nilmar e o Luís Fabiano são jogadores que qualquer seleção tem. São bons jogadores, mas não são diferenciados, especiais”, diz o ex-craque.

Os artilheiros aposentados

Matéria originalmente publicada na edição 1352 (março/2011) da Revista PLACAR