Como uma grave lesão no joelho transformou Paulo Henrique Ganso num craque insubstituível
Momentos finais da decisão do Paulista de 2010. O Santos defende a derrota por 3 x 2 com unhas e dentes. Será campeão caso mantenha o resultado, mas a tarefa não é fácil. O Alvinegro já perdeu três jogadores e o Santo André aposta a vida em contra-ataques tresloucados. Paulo Henrique Ganso, que já havia se recusado a sair de campo apesar do comando de Dorival Junior, assume a missão de manter a bola na defesa adversária. Cada minuto literalmente vale o ouro. Eis que, ao cobrar um escanteio, o armador santista faz algo improvável. Levanta o olho em direção ao gol, mas rola a bola apenas alguns poucos centímetros na grama. Bate o escanteio para si mesmo. O suficiente para a bola escapar da área demarcada e validar a cobrança. Baixa a cabeça e deixa o lugar com passos calmos. Até que alguém entendesse o que estava acontecendo naquele canto do Pacaembu — e algum jogador de azul fosse em busca da bola —, preciosos instantes se passaram na conta do Santo André. Naquele momento Ganso havia se dado conta de algo extraordinário: ele poderia ser considerado genial mesmo sem a bola nos pés.
O Santos foi campeão naquele domingo de maio e ainda levaria a Copa do Brasil em agosto. As atuações de Ganso foram coroadas com uma convocação de Mano Menezes. O santista não desapontou na primeira vez que defendeu a seleção principal. Primeira e única até agora, já que dias depois ele romperia o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo num jogo contra o Grêmio. Lesão grave, que demandaria pelo menos seis meses longe do mundo da bola justamente no momento em que ele mais brilhava. Um enorme azar? É certo que sim. Mas isso não significa que o tempo parado seja um desperdício completo. Prestes a voltar aos gramados, Ganso pode olhar para trás e constatar que sair de cena (como no escanteio contra o Santo André) também pode ter suas vantagens.
Mesmo parado — ou talvez por causa disso —, Ganso parece ter subido um nível na escala imaginária dos craques. Virou objeto de desejo de clubes daqui e de fora; aproveitou para reclamar e renegociar seu contrato com o Santos; fechou contratos de publicidade que lhe renderam milhões; e viu seu nome ganhar cada vez mais força nas manchetes de jornal e nas rodas de conversa sobre futebol. No imaginário popular, o tempo de estaleiro serviu para confirmar a certeza de que Ganso é o messias que trará de volta à camisa 10 da seleção a elegância dos armadores clássicos — tudo isso apesar de ele já ter estourado seus dois joelhos (o ligamento cruzado anterior do direito rompeu em 2006) e contar com apenas um amistoso pela seleção no currículo.
DE CRAQUE A MITO
“O que está acontecendo é uma coisa natural. A morte ‘aumenta’ o talento. Quando artistas geniais morrem, viram mito. Guardadas as devidas proporções, o Ganso virou mais craque parado do que jogando”, acredita o jornalista Milton Neves. A dualidade entre o real e o idealizado remete também ao clamor popular para que Ganso fosse à Copa. Dunga teria “assassinado” a possibilidade de um Brasil mais criativo ao não convocá-lo, e é quase impossível deixar de imaginar uma Copa mais animadora com ele em campo. “Temos uma carência nostálgica muito grande do armador clássico, da elegância dos caras dos anos 60; e o Ganso resolvia isso com muita eficiência. Em nosso imaginário ele era um cara obrigatório na África, o que reforçou bastante o fenômeno que estamos vivendo hoje”, diz o comentarista Xico Sá.
O fato é que especular sobre o que não foi é um prato cheio para muita gente. “Mesmo parado, a mídia não parou de falar sobre mim. Parece que aumentou ainda mais! É uma coisa muito louca. Isso me deixa alegre e um pouco assustado também”, diz Paulo Henrique no CT Rei Pelé, no intervalo entre seus dois turnos de treinamento na reta final do processo de recuperação.
“Sou abençoado, pois mesmo machucado muitas empresas quiseram usar a minha imagem.” No período sem jogar bola, seis contratos publicitários foram fechados: Nike, Gatorade, Pepsi, Gillette e Samsung, além de um banco, praticamente acertado. Estima-se que só os quatro primeiros tenham rendido cerca de 1,7 milhão de reais. O sucesso comercial é um dos motivos pelos quais o santista não aceitou o plano de carreira proposto pelo clube.
“Essa parada dele foi boa, pois conseguimos trabalhar algumas coisas que na correria do calendário do futebol fica difícil”, diz Guilherme Miranda, diretor da DIS, braço esportivo do Grupo Sonda, que gerencia a carreira do jogador. E a imagem de “craque do futuro” vende como picolé de limão na arquibancada. “Fechei alguns contratos e vejo que a questão da imagem foi bem trabalhada no tempo em que fiquei parado”, diz o jogador. Desde que Ganso virou o garoto-propaganda no Brasil da chuteira CTR360, da Nike, as vendas do calçado aumentaram em 36% — mesmo sem Paulo Henrique aparecer nos jogos da tevê. A fabricante de materiais esportivos não se preocupa com a volta dele aos campos e aproveita para surfar na onda da expectativa criada nos últimos meses.
Mas está chegando a hora de botar à prova a diferença entre o Ganso imaginário e o Ganso real. Ele deve voltar ao batente no começo de abril.
O RETORNO
“Já me sinto pronto. Espero só a liberação do médico. Acho que duas semanas de treinamento com o grupo são suficientes para apresentar outra vez aquele belo futebol”, diz Ganso, que cita a primeira lesão no joelho como base para sua estimativa. Durante a conversa com a PLACAR, a ansiedade pelo retorno fi cou clara. Na primeira oportunidade que teve durante a sessão de fotos, aproveitou para dar um chapéu no repórter. Quando este tentou roubar a bola, Ganso aplicou-lhe uma caneta desmoralizante e concluiu com um chute ao gol vazio. “O que digo a ele é que o retorno independe da sua vontade de jogar”, diz o ortopedista José Ricardo Pécora, que o operou.
“O enxerto no joelho tem um tempo de maturação, e o cronograma será respeitado. Além da ruptura total no ligamento cruzado anterior, ele teve pequenas lesões associadas no menisco lateral e cartilagem. Mas, com uma recuperação bem feita, não há nenhuma perspectiva de problemas futuros na carreira”, diz o médico. Sua previsão é de que Ganso estará à disposição de Adílson Batista no meio de março. O técnico santista, aliás, não fala, sobre o assunto, nada além de que botará Ganso no time quando for a hora certa. Enquanto isso, a expectativa de assistir à volta dele só cresce…
“Não adianta. Ficamos com a imagem do Paulo do último ano, do melhor jogador em atividade no país junto com o Neymar. Mas precisaremos ter um pouco de paciência. Ninguém volta em sua melhor forma depois de uma contusão dessas”, alerta Dorival Junior, técnico com quem Ganso ganhou a “maioridade futebolística” no Santos. Se por um lado a condição de craque parece ter crescido durante o tempo parado, a pressão para que ele corresponda a isso acompanha Ganso aonde ele for. “Ele está no primeiro nível no Brasil, mas não temos certeza de que se tornará um craque do futebol mundial. Os grandes jogadores se tornam grandes porque passam por essa pressão e crescem com isso. Se a pressão abatê-lo, é porque não era para ele ser um grande jogador”, define o ex-craque e atual comentarista Tostão.
“O Ganso é um fora de série, tem um potencial fantástico, mas calma. Jogar bem durante um ano é uma coisa; o importante é você jogar bem por 12, 15 anos”, diz o ex-jogador Roberto Rivellino. Já Guilherme Miranda, da DIS, aposta alto. “Estamos falando do camisa 10 da seleção. Uma das nossas metas é que seja premiado como o melhor do mundo nos próximos quatro anos.” Seria um plano muito ousado? Estariam exigindo demais de um garoto de 21 anos que acaba de voltar de sua segunda cirurgia nos joelhos? Ganso acha que sim. “Ainda não tenho essa meta de ser o melhor do mundo. Estou muito longe disso. Procuro ser realista”, diz o jogador, com a voz tranquila que lhe é característica.
“Primeiro, tenho de voltar bem da cirurgia, jogar a Libertadores pelo Santos. Depois, retornar à seleção — tem a Copa América aí. É nessas pequenas metas que eu vou chegar lá em cima.” E “chegar lá em cima” pode ser entendido como jogar bem num grande clube europeu e não largar mais o posto de regente do meio-campo de Mano Menezes.
MAESTRO BRASILEIRO
Uma não ida à Copa e um amistoso. Foi o que bastou para se ter a certeza de que, recuperado, Ganso é a solução para a falta de criatividade na seleção. “Esse organizador, que pensa o jogo, está acabando no nosso futebol porque hoje os times jogam muito acelerado. Todo mundo vê o Ganso como a esperança de que, enfim, teremos um grande craque no meio-campo da seleção”, diz Tostão. E, realmente, Ganso satisfaz todos os requisitos daqueles que se encantam com os armadores dos times de antigamente: sabe a hora de meter uma bola, de acelerar o jogo, de tocar de lado etc. Isso tudo sem precisar ser um velocista. “O povo brasileiro voltou a ver a seleção brasileira do jeito que gosta. Por isso essa expectativa grande de eu ser o camisa 10, um armador à moda antiga. Acho que o último [com as mesmas características] foi o Zico”, avalia Ganso.
“Antes ele pegava poucas vezes na bola, mas, desde janeiro do ano passado, passou a ser muito mais dinâmico e participativo. Acho que ele tem lugar assegurado na seleção desde que volte a jogar dentro de suas melhores condições”, afi rma Dorival Junior. Segundo o Datafolha, antes de se machucar, Ganso estava recebendo, em média, 40 bolas por jogo. Era o mais acionado no Santos, atrás apenas de Robinho. “Não se encontra fácil outro jogador com as características do Ganso”, lamentava Mano Menezes após o jogo contra o Irã, em outubro. Lamento justo. A melhor apresentação da era Mano foi no amistoso contra os Estados Unidos, com o jogador articulando o meio da seleção.
Clubes do Brasil e da Europa já agitam os bastidores para contar com o estilo elegante de Ganso ainda este ano. Na terceira semana de fevereiro, a assessoria de imprensa do jogador teve de divulgar dois comunicados afastando rumores de possíveis transferências para Corinthians e Milan. Ganso, que já se declarou insatisfeito com o salário de 130000 reais no Santos, tem multa rescisória de 50 milhões de euros para times do exterior. Para times brasileiros, o valor cai para cerca de 26 milhões de euros. “Acho que não tem nenhum clube do mundo que pague 50 milhões de euros. Mas vejo a possibilidade de pagarem a outra multa. Só que antes de partirem para algo mais concreto, os clubes querem ver os próximos três jogos do Ganso”, diz Guilherme Miranda, da DIS. Nós também queremos.



[...] as devidas proporções, o Ganso virou mais craque parado do que jogando”, Milton Neves em reportagem da revista Placar que mostra que a lesão que Ganso sofreu em 2010 o ajudou a se tornar um mito no futebol. Veja [...]
eu acho que a dez e do kaká porque?ele tem uma tecnica impresionante e o lucas do sao paulo e um bom concorente
Acho o Ganço, um craque com a bola nos pés, mais falta umildade para ele pois tenho lido em noticiarios que ele quer ir embora , não sou contra mais deveria dar mais valor ao clube que o projetou, pois se estivesse jogando em algum clube daque de Belém, não chegaria tão distante. Pence nisso Ganço.
Cuando Kaká esté bien será el 10 indiscutible. Kaká en forma es el mejor jugador del mundo. Ganso tiene que probar mucho, todavía.
O armado da seleção brasileira deveria ser Ganso e Kaká, mas ja para jogar distribuindo as jogadas abertas deveria ser usado o hernanes e o lucas