Após pedido do presidente do Conselho Nacional de Desportos, Manuel Turbino, de haver diminuição no número de competidores do Campeonato Brasileiro, uma sucessão de eventos levou os clubes a, em 1987, organizarem sua própria Liga de futebol. Nascia, assim, a Copa União, com os 16 clubes mais populares do país.

O grande motim deu certo. A partir desta semana, dezesseis clubes mostram o que há de melhor no país do amor à bola

Integrantes do Grupo dos 13 se reúnem em 1987 para organizar a Copa União

Foto: Antonio Carlos Mafalda/Arquivo

Vitória do futebol: o Grupo dos 13 ganha a parada

Sexta-feira passada, em Porto Alegre, o humorista e escritor Luis Fernando Verissimo rompeu sua habitual barreira de silêncio. “Parece que o bom senso venceu, mas eu tenho medo é da revanche”, murmurou. O caladão Verissimo, torcedor inveterado do Internacional, referia-se à Copa União, que, finalmente, tinha sinal verde para começar nesta semana. A cautela contida na segunda parte da frase se justificava. Tratando-se de alguns expoentes da cartolagem nacional, é prudente ter um pé atrás.

No entanto, a Copa União está aí. Gerada da rebelião do Grupo dos 13, ela ganhou mais três integrantes (Coritiba, Goiás e Santa Cruz). Tirada a fórceps, veio à luz bela e viçosa, reunindo a nata do futebol tricampeão do mundo. É bem diferente daquele monstrengo espúrio e inchado que, em 1979, por exemplo, chegou a aglomerar 94 clubes. Agora são dezesseis times de chegada. E de torcida.

Não foi fácil. A Copa quase não sai. A última semana foi permeada por reuniões, impasses, vozes radicais e conciliatórias. Para que se compreenda melhor essa história, convém voltar a julho, quando Mácio Braga, do Flamengo, Carlos Miguel Aidar, do São Paulo, e mais onze presidentes de clubes resolveram peitar a CBF, exigindo qualidade, e não quantidade no campeonato nacional. Ali surgiu o Grupo dos 13 e idéia da Copa União. Prepararam-se, então, para o duelo, que aconteceu quinta-feira passada, no eixo CBF-Copacabana Palace-Gávea, no Rio de Janeiro.

Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo e do Grupo dos 13, e Márcio Braga, presidente do Flamengo

Foto: Antonio Carlos Mafalda/Arquivo

Aidar (sentado) e Braga: os cabeças de uma rebelião que esvaziou a CBF, sacudiu a poeira e fez o futebol brasileiro dar a volta por cima

A suíte 351 - Como numa rua de Tombstone, mítica cidade dos filmes de faroeste, do lado oposto ao saloon futebolístico estavam Otávio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid, presidente e vice da CBF. Respaldado por um consenso, o Grupo dos 13 viu-se transformado numa associação de mocinho. “Mais que defensor da Copa União, eu me considero um porta-voz desse movimento”, rugiu o venerando João Saldanha.

Não se pode dizer que Nabi e Otávio tinham deixado viúvas. Mas perderam a parada. A última controvérsia foi resolvida na madrugada de sexta-feira, na decisão de que o dinheiro que virá da Rede Globo pela transmissão exclusiva do evento e toda a parte de marketing da competição (leia mais abaixo) serão gerenciados pelos clubes.

Os presidentes das federações paulista, carioca, baiana, mineira e gaúcha incumbiram-se, na quinta-feira, da grande batalha de aparar arestas que pareciam colossais. Eles se reuniram na suíte 351 (dezena do galo no jogo do bicho) do Copacabana Palace Hotel, de onde a solução saiu rascunhada em duas folhas de papel.

Dor de dente - O tal documento, basicamente, dizia o seguinte: o campeonato brasileiro terá quatro módulos – verde, amarelo, azul e branco – com dezesseis clubes cada um. No módulo verde ficariam os treze amotinados, mais Coritiba, Santa Cruz e Goiás. Campeão e vice desse grupo jogarão contra o primeiro e segundo colocados do módulo amarelo, no início do ano que vem, para se apontar os dois representantes do Brasil na Taça Libertadores da América. “Quem não aceitar nossa fórmula ficará sozinho”, ameaçou o paulista José Maria Marin, sem assustar ninguém.

Nesses dias tumultuados, além de sede do Flamengo, a Gávea virou quartel-general do Grupo dos 13. A fatídica quinta-feira encontrou Márcio Braga curtindo o baixo-astral de uma dor de dente. E seu colega Vicente Matheus, do Corinthians, sem paciência para discursos ocos. Lá pelas tantas, cansado de palavras vazias, ele ameaçou uma retirada. “Sou um homem ocupado”, deu o ultimato. Essa estratégia da velha raposa reconduziu a discussão para os eixos: como concretizar a Copa União.

Morro Dona Marta - Enquanto isso, a apertada Rua da Alfândega, em cujo número 70 se ergue a sede da CBF, vivia um clima de guerra. Algumas lojas chegaram a fechar as portas por causa de um grupo de torcedores que gritava palavras de ordem contra Otávio e Nabi. “Rá, rá, rá, se descer vai apanhar”, berrava a galera. O som do protesto, contudo, não chegava aos atapetados e refrigerados gabinetes da dupla, situados no 8º andar (Nabi) e no 9º (Otávio). Como se sabe, os dois não têm um relacionamento muito estreito. Tanto assim que gente faladeira os apelidou de “Zaca” e “Cabeludo”, os chefes de quadrilhas rivais que, recentemente, colocaram o Morro Dona Marta, no Rio, em polvorosa. Pura maldade.

Nabi Abi Chedidi, vice-presidente da CBF em 1986

Foto: Antonio Carlos Mafalda/Arquivo

Nabi: sem ouvir o som do protesto

“Homens ou ratos” - A notícia do acordo entre os Grupo dos 13 e as Federações chegou por telefone. Exultante, Nabi negava ter contratado técnicos especializados para a elaboração da tabela. Tratou, entretanto, de capitalizar a conquista. “Foi tudo obra minha”, falseou. Minutos mais tarde, foi a vez de Otávio dar as caras. Como sempre, falou muito e disse pouco. “Restabeleceu-se a hierarquia do futebol brasileiro”, comentou, referindo-se aos entendimentos dos clubes com as federações e estas com a CBF. Bobagem. Os clubes venceram sozinhos.

É evidente que, depois dessa jornada exaustiva e, às vezes, insana, nem todo o mundo estava feliz. “Eles continuam donos do espetáculo”, vociferou o lúcido Zico. “São a atração principal dessa palhaçada”. Rompido com a CBF e ignorado pelo Grupo dos 13, o presidente da Federação Paranaense de Futebol, Onaireves Moura, destilava bile em Curitiba. “Não sei se acredito nos homens ou nos ratos”, trovejava. No entanto, reconhecia que um campeonato com um número entre dezesseis e vinte clubes “era o ideal”.

A torcida do país do futebol, enfim, soltou um aliviado “ufa” ao ver a luz vencer as trevas. A esperada Copa União está aí, cheia de vida. Será mostrada do Oiapoque ao Chuí pela Rede Globo. Está certo, houve um sabor novelesco no desenrolar dos fatos e tramas. Mas, como nas novelas campeãs de audiência, tudo é bom quando acaba bem.

O MARKETING DOS OVOS DE OURO

Existem jogadas mirabolantes por trás da Copa União. Tudo isso, graças à afinada parceria de dois craques do marketing: o flamenguista João Henrique Areias e o são-paulino Celso Grellet. Por intermédio deles, chegou-se a um acordo com a Rede Globo para a transmissão exclusiva de 42 dos jogos do certame. O acerto envolve a respeitável soma de 3,5 milhões de dólares – cerca de 170 milhões de cruzados – num contrato de cinco anos, renovado anualmente.

A Globo entra firme na parada, televisionando três jogos por semana. O primeiro, toda sexta-feira, às 21h30, em sua nova Sexta-Super. O segundo no sábado, às 16 horas. E o terceiro aos domingos, quando serão realizadas as outras partidas restantes, também às 16 horas. Para que os demais jogos dominicais não sofram concorrência, um sorteio definirá o encontro a ser transmitido, entre quatro previamente escolhidos, 15 minutos antes de seu início.

A estratégia não pára aí. A Copa União irá faturar em cima de tudo: da bola utilizada nas partidas às camisetas de gandulas e maqueiros, além de buscar um acordo com a Varig e a Cadeia Othon de hotéis, visando transporte e acomodação. E, na sexta-feira à noite, diversas marcas importantes começavam a brigar para ficar com a parte forte do patrocínio, cerca de 1,3 milhão de dólares em espaços de 15 segundos na Globo. “Vamos associar a ‘marca’ futebol a marcas poderosas, para resgatar sua credibilidade”, ensinava Areias.

Matéria originalmente publicada na edição 902 (14/Setembro/1987) da Revista PLACAR