Blog do Serginho
Diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier não poupa palavras para discutir os principais assuntos do mundo futebolístico
Neymar, culpado ou inocente?
O olé de Neymar continua dando o que falar. As opiniões se dividem, até onde vai o limite do deboche? Neymar poderia fazer o que fez com o pobre paraguaio Píris, do São Paulo? Poderia ter driblado seis vezes para lá e para cá em uma jogada no meio-campo que não ia em direção ao gol?
Antes de mais nada, para entender do que estamos falando, é preciso sair da arquibancada e entrar no gramado. É necessário ao menos tentar entender a ética dos jogadores para compreender suas reações. No código de honra deles, que não está escrito em lugar algum, é crime quando alguém tenta ridicularizar um colega de trabalho. E a pena para esse crime é uma bordoada bem dada, simples assim.
Na ética boleira, tentar fazer muitos gols e driblar para a frente faz parte do show. Fintar para trás com o único objetivo de debochar do adversário não pode. Por essa descrição, Neymar teria passado dos limites no domingo. Por isso Píris perdeu a cabeça e levantou o moleque. Por isso o resto do time do São Paulo estava tão nervoso.
Só que sempre é necessário analisar o contexto. O lateral paraguaio estava fazendo uma marcação individual que começou leal e aos poucos foi ficando mais forte. Píris estava impedindo o “ir e vir” de um craque que gosta de se movimentar para os lados. Aos 36 minutos do primeiro tempo, Neymar resolveu deixar claro que era imparável. E fez o que fez. A impressão é que passaria a tarde inteira driblando para um lado e para o outro. Queria tirar Píris do esquadro, queria a pancada, queria pendurar seu marcador com um cartão amarelo. Conseguiu. Feriu a ética dos jogadores? Talvez não, já que usou a habilidade para reconquistar sua liberdade em campo. Jogo jogado. Píris não é um marcador assassino nem Neymar pode ser qualificado como um coitadinho. O futebol nem sempre é simples.
Gandulas artilheiros
Para quem não viu a gente explica. O primeiro lance aconteceu no Grenal do domingo. O Internacional criou uma espécie de jogada ensaiada. Quando a bola sai, os gandulas do Beira-Rio colocam rapidamente a bola no canto para o colorado Dátolo surpreender os adversários com o escanteio-surpresa. O juiz Márcio Chagas avisou antes que não toleraria o truque, mas no segundo tempo um gandula arriscou. Márcio mandou voltar a cobrança, mas nesse meio tempo o técnico gremista Vanderlei Luxemburgo saiu de seu reservado para empurrar o gandula. O treinador foi expulso, o Grêmio entrou em parafuso e perdeu o campeonato.
O segundo lance aconteceu no Engenhão. Uma gandula esperta do Botafogo fez quase uma tabelinha com Maicossuel. A bola mal tinha saído pela lateral e a gandula já tinha atirado uma outra para Maicossuel bater o lateral e Loco Abreu fazer o gol do Botafogo que começou a eliminar o Vasco do Carioca.
Dois lances em que gandulas da casa decidem não só um jogo, mas até o campeonato. Geralmente os gandulas da casa apressam o jogo quando o time da casa está perdendo e retardam quando a ideia é segurar o resultado. A FIFA, em Copas do Mundo, acabou com o problema. Faz os gandulas reporem a bola sempre da mesma forma, seja para quem for. Uns três ou quatro segundos, sempre o mesmo tempo. A solução geral para o problema é tão óbvia quanto simples. O gandula deve ser como os árbitros, precisa ser responsabilidade da federação, não do time mandante. Afinal, assim como os juizões, eles podem decidir partidas.
Aos 36 minutos
Como numa dança de cadeiras, a música parou e mais alguns clubes ficaram sem ter onde sentar. Nesse fim de semana, quatro grandes foram eliminados dos estaduais. O Vasco deu adeus ao carioca, o São Paulo vai ver o Paulistão pela TV, o Grêmio só terá a Copa do Brasil para se divertir, o Cruzeiro precisará se esquecer do Mineiro. Os quatro foram eliminados nos estaduais, cada um a seu jeito. O Grêmio perdeu um grenal brigado que sempre será lembrado como o grenal de Luxemburgo. Não pelas mexidas táticas, mas pela agressão a um gandula colorado.
Guardiola no Brasil?
Para muitos, o melhor técnico de futebol do mundo. Pepe Guardiola ganhou tudo com o Barcelona e, mais do que tudo, provou que é possível combinar espetáculo e eficiência. É difícil determinar exatamente o papel de Guardiola nesse processo que já dura muitos anos. O grande Barcelona não começou com Guardiola, já existia antes. Antes de assumir o cargo de comandante, o time já jogava bonito e levantava taças. Difícil também é não enxergar o papel de Messi nessa equipe. O Barcelona é uma filosofia, mas também não se pode reduzir a importância de Guardiola nessa verdadeira revolução do futebol.
O fato é que após quatro anos de ótimos serviços prestados à Catalunha, Guardiola pediu o boné. Elegantemente disse que “não conseguia mais transmitir sua força e energia aos jogadores”. Não disse, mas é quase como se assumisse uma culpa pelos dois fracassos na Liga dos Campeões e no Campeonato espanhol. É como se tentasse tirar o peso das costas dos seus comandados. Elegância não se compra na farmácia da esquina. Guardiola deixa em seu lugar o auxiliar Tito Vilanova. O homem que trabalhou Lionel Messi nas categorias de base. Em tese, o Barcelona seguirá muito forte e jogando bonito.
E Guardiola? Convites não faltarão. Quem não gostaria de contar com um treinador desses? Todo clube ou seleção que quiser posse de bola e qualidade telefonará para Pepe. Só por curiosidade, o site da revista Placar botou uma pesquisa no ar nessa sexta-feira. A Seleção Brasileira deveria colocar Guardiola no lugar de Mano menezes? A resposta não deixa dúvidas: 97% gostariam de ver o espanhol por aqui. Eis algo para o moderno José Maria Marin, presidente da CBF, pensar antes de dormir.
Ô, semana doida
Nem chegamos ao final, mas já dá para dizer que fazia tempo que não tínhamos uma semana tão louca no futebol. A doideira começou na Europa. Em três dias desmoronou o mundo perfeito do Barcelona. Bordoada no Campeonato Espanhol e eliminação na Liga dos Campeões para um Chelsea que jogou mais da metade do tempo com 10 homens. O Real Madrid ficou com caminho aberto para o título e tropeçou no Bayern de Munique.
No plano nacional, o Flamengo resolveu tirar férias de verdade. Perdeu o estadual e só jogará daqui a três semanas. O Corinthians perdeu para a Ponte e foi eliminado do Paulistão com frango de seu goleiro Júlio César. Tite, que faz o diabo para preservar seu grupo, não conseguiu segurar a onda e sacou o goleirão do time que enfrentará o Emelec na semana que vem pela Libertadores.
Por falar em torneio continental, o Santos engripou na altitude de La Paz. Mais estranho que ver o campeão da Libertadores perder de novo na Bolívia é constatar que Neymar não funcionou. Isso é tão raro quanto ver Messi falhar como falhou na Liga dos Campeões. E tudo aconteceu nessa semana. Semana doida. Semana em que os últimos três jogadores melhores do mundo erraram pênaltis decisivos. Sim, além de Messi, Cristiano Ronaldo e Kaká perderam pênaltis na Liga dos Campeões. Se os três melhores desperdiçaram penalidades, porque o colorado Dátolo não poderia errar uma cobrança no empate contra o Fluminense nessa quarta-feira? Francamente, o argentino tem todo o direito de fazer bobagem nesses dias em que dá tudo errado para todos. Mas a semana está terminando, muita gente está agradecendo aos céus por causa disso.



