Blog do Serginho

Diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier não poupa palavras para discutir os principais assuntos do mundo futebolístico

Blog do <em>Serginho</em>

Adriano e Ronaldinho

O Corinthians fez até mais do que o esperado. Adriano estava pesado, sem condição de jogo na véspera da inscrição para a primeira fase da Libertadores. Mesmo assim a diretoria, e principalmente o técnico Tite, resolveram apostar no passado glorioso do Imperador. Inscreveram o jogador, esperaram que ele desse a sua contribuição. Adriano até começou bem, perdeu peso, pareceu interessado. O interesse durou pouco. Adriano foi nessa sexta-feira afastado pelo treinador.

O torcedor do Flamengo fez até mais dom que se esperava dele. Aplaudiu Ronaldinho Gaúcho mesmo nas atuações banais. Não levou em conta a relação custo benefício do jogador. Um dos maiores salários do futebol brasileiro, Ronaldinho joga como se fosse um qualquer. Burocrático, toca para o lado, se esconde em um canto do campo, espera a bola chegar. No jogo da Libertadores dessa semana, pela primeira vez o torcedor rubro-negro resolveu vaiar Ronaldinho. Paciência tem limite. Adriano e Ronaldinho não são assuntos apenas de flamenguistas e corintianos. Eles deixam torcedores de todas as cores mareados. Grandes ídolos, enormes potenciais, salários estratosféricos. E um desprezo absoluto quem os acompanha.

Viver não é recordar

Foi uma noite gloriosa para os três tricolores brasileiros. Vitórias heroicas sobre Boca, Ríver e Independiente, e na casa deles. Bem, trata-se de uma meia verdade, ou melhor, um terço de verdade. Porque o Fluminense venceu mesmo o enorme Boca Juniors, na Bombonera, mas as vitórias de Grêmio e São Paulo foram mais genéricas, por assim dizer. O Grêmio passou pelo Ríver do Piauí e o São Paulo ganhou do Independente do Pará. E olha que foram vitórias bem suadas pela Copa do Brasil.

 A super-quarta-feira de futebol teve fatos ainda mais importantes. Menos pelos clubes, mais pelos jogadores. Messi marcou cinco gols em um jogo de Liga dos Campeões que o Barcelona enfiou 7 x 1 no Bayer Leverkussen. E Neymar fez três contra o Inter em partida de Libertadores da América. Dois desses foram golaços, de Pelé.

Messi e Neymar atrapalham o discurso dos saudosistas. Ah, bom era o futebol do passado, aqueles é que sabiam tratar a bola. Messi e o Barcelona desmoralizam essa ideia de que o passado é melhor do que o presente. Sorte é a nossa por viver na mesma época de Messi e Neymar. É um prazer muito grande ver o que esses garotos estão fazendo pela bola. Neymar está crescendo e multiplicando suas pinturas exibidas nos youtubes da vida. Messi já entrou em galeria dos cinco melhores de todos os tempos. Ou seria dos três melhores? Será que ele já passou Maradona? Assunto para outro dia.

O bufão vascaíno

Aconteceu na noite dessa quarta-feira, em São Januário. Pela Libertadores da América, o Vasco não podia nem pensar em tropeço contra o
Alianza Lima, do Peru. O jogo foi duríssimo, mas os brasileiros venceram por 3 x 2. Poderia ter sido mais fácil, não fosse um certo camisa 9 vascaíno. Alecsandro teve uma daquelas atuações para esquecer pelo resto da vida. Deu tudo errado. Alecsandro marcou dois gols, ambos anulados. E bem anulados, o atacante estava bem impedido. Alecsandro perdeu um balaio de gols, desperdiçou bolas fáceis, errou passes. O pior mesmo foram os pênaltis, isso, assim no plural. Na primeira cobrança, escorregou e acertou o travessão. Na segunda, bateu rasteiro e o goleiro pegou. O Vasco ainda teve um terceiro pênalti. Os companheiros vascaínos, espertos, nem deram a chance de Alecsandro bater.

Alecsandro teve uma noite de Deivid, por assim dizer. Para quem não lembra, Deivid é o atacante do Flamengo que perdeu embaixo da trave o
gol mais feito do milênio e redefiniu o conceito de fracasso no futebol. Só que há uma diferença fundamental. Deivid perdeu o gol que talvez levasse o Flamengo a final da Taça Guanabara e assumiu a culpa. Bateu no peito, pediu desculpa a todos e deu sequência a sua vidinha. Alecsandro não. Para o primeiro pênalti perdido, culpou um buraco de São Januário. Até aí vá lá, já que escorregou mesmo na hora da cobrança. Para explicar o segundo erro foi mais criativo. Disse que lembrou do buraco e decidiu mudar o jeito de cobrar o pênalti. Por isso teria errado. Humm, aí não, Alecsandro. Tão mais simples reconhecer um erro e seguir em frente. Nesse aspecto, o trágico Deivid é muito melhor do que o bufão Alecsandro.

Buchada de bode

Liga dos Campeões da Europa, Libertadores da América, Campeonato Inglês. Tem muita competição bacana por aí com jogos sensacionais e jogadores de categoria. Mas devo confessar que tenho uma especial predileção por um torneio que muita gente até despreza. A Copa do Brasil é possivelmente a ideia mais bem executada no país do futebol. A fórmula mais inteligente, justa, uma organização que integra o país de norte a Sul.

São 64 clubes de futebol, times de todos os estados. Equipes do tamanho de um tricampeão do Mundo como o São Paulo. Equipes do porte de um Coruripe de Alagoas. Todo mundo junto, numa grande comunhão esportiva. O desenho da
competição privilegia os estádios cheios já na primeira rodada. No ida e volta,
a primeira partida é sempre na casa do pequeno. Que lota as arquibancadas para
ver o grande de perto. Se o grande vencer por diferença de dois gols ou mais,
não há o jogo de volta que teria o estádio certamente vazio.

As primeiras três rodadas da Copa do Brasil tem essa pegada de descoberta do Brasil. Os clubes pequenos recebendo os maiores, a imprensa mostrando os lugares remotos, o Brasil rico se misturando com o Brasil mais sofrido. A partir das quartas-de-final o bicho começa a pegar. É médio contra grande, grande contra grande. Há um prêmio especial para o campeão, uma vaga para a Libertadores. Todo mundo que disputa a copa do Brasil pensa nisso.

De uma certa maneira, Liga dos Campeões e Libertadores são caviar, champanhe,
canapés. Copa do Brasil não, é feijão com arroz, torresminho, buchada de bode. E
todo mundo sabe o valor de uma comidinha caseira bem feita.

Meias verdades

Na frieza dos fatos, Ronaldinho Gaúcho foi o cara do domingo. Foi dele o gol da vitória do Flamengo contra o Duque do Caxias. Quem não se atém apenas aos resultados sabe que Ronaldinho, mais uma vez, “não” foi o cara. Ele apenas bateu o pênalti que garantiu a vitória rubro-negra. Não foi protagonista, foi coadjuvante.

Assim como Ronaldinho, Kaká também marcou um gol na vitória do Real Madrid no domingo. Ao contrário de seu colega de Seleção, Kaká foi o cara. Eleito o melhor em campo nos 5 x 0 contra o Espanyol, marcou, deu assistências, liderou. Assim como Paulo Henrique Ganso na Vila Belmiro. Ganso não marcou, mas seu passe para Ibson valeu por dois gols. E Ganso correu, se multiplicou.

Não se sabe se Mano Menezes acompanhou Flamengo, Real Madrid e Santos no domingo. Tomara. Porque a rodada foi didática. Ronaldinho jogou de freio de mão puxado, como sempre. Kaká atuou até o limite do esgotamento, para variar. Ele tenta recuperar de qualquer jeito a velha forma, por mais que o corpo não seja o mesmo. E Ganso demonstrou que pretende participar mais do jogo correndo, marcando e fazendo suas jogadas brilhantes. Em outras palavras, Kaká e Ganso já merecem a chance que Ronaldinho segue tendo na Seleção Brasileira.

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