Blog do Serginho
Diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier não poupa palavras para discutir os principais assuntos do mundo futebolístico
Zebra é a lógica
Já foi mais fácil acertar na loteria esportiva. Havia mais consistência nas equipes de futebol. Time ruim era time ruim. Simples assim. E geralmente perdia, no máximo empatava. Da mesma forma que os grandes esquadrões mereciam o voto de confiança do apostador da loteria esportiva. Eles venciam quase sempre, sobretudo quando enfrentavam os mais fracos.
Pois falta consistência hoje em dia, o futebol quer nos enlouquecer. O Fluminense venceu bem o Internacional no meio da semana. O que aconteceu no domingo? O Flu tomou de 3 x 0 do América-MG, o lanterna. O Inter que vinha de tropeços, ganhou do Cruzeiro. O Palmeiras, que era arrasador dentro de casa, se atrapalhou no sábado justamente contra o Grêmio, um dos piores visitantes.
E o Vasco, que vinha encantando, perdeu de 4 x 0 para o Botafogo, que só vinha se atrapalhando. Nem é questão do campeonato ser muito equilibrado, de as equipes se parecerem todas. Não se parecem. O líder Flamengo tem muito melhores jogadores do que o Ceará. E outro dia o Ceará aprontou para cima do Flamengo, jogando no Rio.
O que falta mesmo é consistência aos clubes. Os elencos mudam demais, os técnicos não sobrevivem às crises, aí é duro mesmo. Não dá mais para apostar em loteria esportiva. Aliás, ainda existe loteria?
A chatice dos treinadores
Sério, está demais, os técnicos andam insuportáveis. Estão sempre reclamando das arbitragens, todos. Alguns fazem isso de uma forma mais grotesca, caso de Luiz Felipe Scolari. O seu comportado Palmeiras não comete uma única falta e apanha uma barbaridade. Todo santo jogo, Felipão elabora um dossiê instantãneo com os erros que acabaram de acontecer. No último, contra o Coritiba, ele tinha na ponta da língua o número de faltas que o zagueiro Jeci havia cometido contra indefesos palmeirenses como Kléber, o Gladiador.
Há um outro tipo de treinador, os falsos elegantes. Caso de Caio Júnior, do Botafogo, de Renê Simões, do Bahia. Nessa rodada eles gastaram mais da metade do tempo que tiveram diante dos microfones para descascar os juízes. Com modos, é claro. Eles já começam com aquela máxima “olha, eu não sou de falar de arbitragem, mas hoje o juiz nos prejudicou, blábláblá…”.
Mentira. Eles só falam de arbitragem, sempre. Mesmo quando sabem que foram beneficiados no conjunto da obra, dão um jeito de lembrar de um errinho contra suas equipes. É um comportamento preventivo. O objetivo é ser beneficiado no futuro, pressionar a juizada.
Esse ano a arbitragem até melhorou. O jogo está correndo mais. Estamos vendo menos pênaltis ridículos. Há equívocos, mas para todos os lados. Quem não mudou nada foram os treinadores, que seguem reclamando do mesmo jeito de sempre. Ou você já viu o seu treinador elogiando alguma arbitragem?
Cadê o meu artilheiro?
Todo time de futebol deveria ter direito a quatro atacantes confiáveis. Pelo menos quatro. Dois centroavantes, finalizadores e dois jogadores mais rápidos para correr pelos flancos. É o mínimo, deveria existir uma lei. As equipes precisam ter dois desses em campo e dois sobressalentes, já que em um campeonato longo o pessoal se machuca, é suspenso por cartões.
Só que estamos vivendo a crise dos atacantes. Eles estão em falta, poucos clubes podem bater no peito e dizer “eu tenho quatro atacantes confiáveis”. O líder Corinthians nem pode reclamar da sorte. Conta com três atacantes, Liedson, Willian e Émerson Sheik. Só que Liédson entrou na faca. Com dois, a vida ficou mais difícil. O vice-líder Flamengo tem Ronaldinho, só que ele é mais um meia que joga ao lado de Thiago Neves. No ataque, é uma dureza. Deivid toma tanta vaia da torcida que quando marcou o gol da vitória contra o Cruzeiro foi comemorar fazendo uma conchinha na orelha. Não tenham dúvida, quando jogador comemora gol fazendo conchinha é porque a fase não é boa. Geralmente, o torcedor do estádio não se engana, a vaia costuma ser justa.
No Palmeiras, quando Kléber resolve não ir trabalhar é um Deus nos acuda. Os reservas não resolvem. O Inter só tem Leandro Damião, na falta dele, o gol desaparece. O Cruzeiro, coitado, tem uma boa equipe até a página 9. Quando a bola chega lá na frente, o sol se põe. Se juntar Wallyson, Ortigoza, Reis e Sebá, não dá um.
Bem aventurados aqueles que podem contar com dois ou três atacantes confiáveis. Deveria ser lei o torcedor poder contar com quatro bons atacantes para chamar de seu. Mas nesse país falta tudo, principalmente atacante que faça gol.
Pelé no Japão
Parece até pegadinha: o Santos quer inscrever Pelé no Mundial de Clubes em dezembro. Foi a manchete dessa quarta-feira, o campeão da Libertadores anunciou a intenção de inscrever um jogador de 70 anos no torneio do Japão. Não para jogar de verdade, mas para entrar alguns minutos e fazer história. Para isso, o clube precisa inscrever o atleta do século como jogador profissional.
Pode não dar em nada. Mas é uma bela ideia. Porque não é só marketing, há uma generosidade por trás dela. É claro que o Santos ganha muito colocando o maior de todos em campo. O clube liga a sua marca à uma outra marca muito maior, Pelé é maior do que tudo, sempre será.
Mas há o lado da generosidade. O Santos está oferecendo a oportunidade de fazer o seu maior ídolo tricampeão mundial também de clubes. Isso é reconhecimento, eis aí uma demonstração planetária de carinho. Há uma mensagem sendo transmitida de respeito aos mais velhos. Pode parecer apenas mais uma jogadinha de marketing. Perdão, mas aí tem algo mais. É o marketing do bem, aquele tipo de sacada em que todos ganham e ainda sobra uma mensagem positiva para os jovens.
Flamengo, Corinthians e Cruzeiro
Nem tudo é o que parece no futebol. Quem vê os últimos resultados do Corinthians no Campeonato brasileiro enxerga uma decadência pronunciada. O time que vencia tudo se transformou em um perdedor de carteirinha. O Corinthians vem de duas derrotas para Cruzeiro e para o Avaí, um dos lanternas da competição.
O Cruzeiro é outro que parece um lixo se nos fiarmos pelas estatísticas mais recentes. Duas derrotas nos últimos dois jogos, uma delas em casa para o Botafogo. O Flamengo, nesse raciocínio, é uma potência, quase campeão. Venceu bem o Santos na Vila e o Grêmio em casa. Quem segura o Mengão?
Retrospecto conta apenas uma parte da história. Não diz necessariamente o que aconteceu e o que acontecerá em campo. O Corinthians não jogou mal contra Cruzeiro e Avaí, poderia até ter saído vencedor dos dois jogos. Não há crise técnica, o time teve uma pequena queda e o encanto da invencibilidade foi quebrado. Apenas isso. A tendência é que os resultados voltem a aparecer, principalmente porque nessa quarta o adversário é o América-MG, talvez o pior dos 20 times do Brasileirão.
O Flamengo visitará o Cruzeiro, e o jogo promete. O Cruzeiro tem uma equipe forte e vem de resultados ruins. Precisa vencer em casa para não se afastar do pelotão da frente. Ronaldinho fez sua melhor partida dos últimos anos contra o Santos, foi decisivo contra o Grêmio e comemorou bem a fase. Foi para Porto Alegre a um show de pagode, foi poupado dos treinos do time. Será que Ronaldinho e o Flamengo seguram a onda contra o Cruzeiro?



