Blog do Serginho
Diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier não poupa palavras para discutir os principais assuntos do mundo futebolístico
Medalha de latão
Faltam apenas 71 dias para os jogos de Londres. As perspectivas brasileiras de medalhas não são das mais animadoras. Está dura a vida no atletismo, o basquete deve apenas participar e até o sempre favorito vôlei de quadra está em uma fase de transição. Medalhas devem brotar, sim, do vôlei de praia, da natação e do judô. O resto é esperança. É o caso do futebol, que foi absolutamente negligenciado por Mano Menezes. O treinador da Seleção Brasileira passou os quase dois anos de trabalho mais preocupado em salvar a própria pele. Deixou de lado a formação de um time olímpico, que poderia até se transformar na base de 2014, em nome do imediatismo. Convocou bondes enferrujados como Ronaldinho Gaúcho para tentar ganhar os amistosos da hora e garantir o seu emprego.
Mano Menezes já perdeu essa aposta. Não garantiu nada, pode ser demitido a qualquer momento ao primeiro resultado ruim. E não formou qualquer equipe olímpica, nem mesmo sabe qual é a base para Londres.
Apesar de o futebol ser diferente de tudo, ele representa bem a nossa miopia quando falamos de esportes olímpicos. Não mexemos um músculo para o trabalho de formação, mas quando chega na hora dos Jogos, queremos nossa medalhinha. Não temos quadras esportivas nas escolas, não formamos professores de educação física e estranhamos que não apareçam bons atletas. Não somos capazes de entender o básico. Para que serve o esporte, o que ganhamos quando o país bota uma medalha no peito? Podíamos dar uma olhadinha para o lado e ver o que estão fazendo os Estados Unidos.
Os americanos lançaram nessa segunda-feira o programa, Let’s Move, que pretende tirar da obesidade quase dois milhões de crianças. O plano é usar as celebridades olímpicas para motivar jovens à prática de atividade física. É para isso que servem as medalhas, para inspirar o país. E alguns desses gordinhos de hoje serão os medalhistas do amanhã. Quando o Brasil perceber que Olimpíada serve para isso os resultados consequentemente virão à reboque.
Diversão e arte
Neymar, pra variar, fez misérias dentro de campo. Com um minuto de jogo, já tinha destroçado o Guarani com um lançamento inusitado que acabou no primeiro gol santista. Depois marcou mais dois, driblou, desequilibrou. Fez o que vem fazendo nos últimos meses. E o Santos fez o que vem fazendo nos últimos anos, levantou mais uma taça.
Só que vale a pena se fixar no que Neymar fez fora de campo, logo que terminou a final do Campeonato Paulista. O garoto entrou em um transe de felicidade impressionante. Pulou, tirou a camisa, gritou, deu uma volta olímpica particular para ficar perto dos torcedores. De repente, abandonou tudo, desceu o fosso e chegou perto das arquibancadas. Negociou com os policiais e resgatou para a festa do gramado seis amigos de Santos.
Há algo simbólico nesse gesto de querer dividir a alegria com os amigos torcedores. Apesar de já ser um milionário da bola e o rei do marketing, Neymar se comporta como um boleirão. Que vibra com o jogo em si e com suas conquistas. Com tantos milhões pingando em sua conta bancária, com tantas menininhas gritando por ele, seria até natural que Neymar se esquecesse um pouco da bola. Acontece com muita frequência, os jogadores simplesmente relaxam. É normal, é humano.
No caso, o profissionalismo no futebol tem tudo a ver com a preservação do espírito amador da várzea. Comemorar um título como se fosse o último é um ótimo sinal. Está claro que o deslumbramento todo com a fama não tirou Neymar do prumo. Mais dos que os seus dribles e gols, talvez tenha sido essa a melhor notícia do domingo.
Vitória da qualidade
E venceu a qualidade. De um modo geral, venceu a qualidade na decisão dos estaduais de norte a sul pelo Brasil. O Internacional era o melhor time do Gauchão, aquele que marcou mais pontos. Sofreu, mas passou pelo Caxias. No Rio, o Fluminense, que vai bem na Libertadores, o Flu dos ótimos Fred, Deco, Thiago Neves, atropelou no Estadual. No Baiano, o Bahia de Paulo Roberto Falcão somou um caminhão de pontos na primeira fase. Vencer o Vitória, apesar da contradição da frase, era o justo.
Claro, houve uma exceção, o Figueirense ganhar dois turnos e não ser campeão é o absurdo do ano. Em Minas, o Atlético tinha mais time, tinha mais conjunto, teve melhor campanha. Nada mais coerente que passar por cima do América na final. Um 4 x O para fazer até o meio borocochô Cuca abrirum sorrisão. No Paraná, deu o time da primeira divisão contra a equipe da segunda. Coritiba venceu o Atlético nos pênaltis.
E justiça em São Paulo. No agregado, o Santos venceu o Guarani por 7 x 2 com o 3 x 0 do primeiro jogo e o 4 x 2 desse domingo. E não tem como falar em excelência sem citar um jogador especial. Neymar é, sem dúvida, o símbolo maior da qualidade hoje no futebol brasileiro.
Os “sem-campeonato”
Corinthians e Vasco estão felizes da vida com a Libertadores. Santos, Fluminense e Internacional ainda estão com excelentes chances de serem campeões estaduais após os resultados do primeiro jogo da final.
Palmeiras, Grêmio, Atlético-PR andam com a Copa do Brasil para se divertir. Na outra semana já teremos Campeonato Brasileiro e a maioria dos grandes clubes ainda está ocupada com Libertadores, Copa do Brasil ou estaduais. Os noticiários falam mais dessa turma, o que é absolutamente natural.
Só que já temos alguns grandes que estão no limbo, que perderam tudo que era possível perder no primeiro semestre. Aí é melancolia pura. O que dizer do Flamengo, que não faz um jogo oficial desde 22 de abril? Ao ser eliminado da Libertadores na primeira fase e na semifinal do estadual, o Flamengo saiu de cena. O Cruzeiro entrou nessa quarta-feira no clubinho dos “sem-campeonato”. Eliminação no Mineiro para o América e desclassicação na Copa do Brasil após duas derrotas para o Atlético-PR. Chato. O Botafogo ainda está vivo no Carioca, só que respira por aparelhos. Precisa reverter no domingo uma vantagem de três gols do Fluminense, algo pouco provável. E nessa quarta também saiu melancolicamente da Copa do Brasil após perder para o Vitória em casa.
Flamengo, Cruzeiro e Botafogo precisam, antes de chorar as pitangas passadas, abrir bem os olhos. O Campeonato Brasileiro é longo, mas funciona por pontos corridos. Quem entrar desacelerado demais não consegue depois recuperar o prejuízo.
De pato a ganso
De vez em quando parece até que estamos no país errado. O noticiário nos faz pensar que andamos na Inglaterra, na Espanha, que viramos o primeiro mundo do futebol. Em Minas gerais, o zum-zum-zum fala na contratação de Diego Forlán para o Atlético Mineiro. Para quem não lembra, o uruguaio foi eleito o melhor jogador da Copa de 2010, e isso não faz nem dois anos.
Outra notícia. Corinthians confirma o interesse em Alexandre Pato, do Milan. Para quem não lembra, Pato foi vendido pelo Internacional por 20 milhões de dólares. O atacante da Seleção Brasileira está longe de ser um veterano, é um garoto de 22 anos e ainda por cima namora a filha do presidente Sílvio Berlusconi.
Os clubes brasileiros não se metem de pato a ganso por nada. O mais incrível é que essas contratações malucas são capazes até de se tornarem realidade. Os clubes não contam com arrecadação de bilheteria, nossos marketings ainda engatinham, todo o mês o futebol brasileiro fecha no vermelho.
O Flamengo de Vágner Love e Ronaldinho Gaúcho está com uma estratosférica dívida de 432 milhões de reais. Corinthians e Atlético-MG devem os tubos também, todo mundo deve. Mas mesmo assim o futebol brasileiro se comporta como o rico falido que acende charuto com nota de 100 dólares.
Nada contra Pato e Forlán, eles são craques e fariam um bem danado ao futebol nacional. Agora grandes investimentos também precisam ser sustentáveis. O Santos, nesse aspecto, dá uma lição ao montar um plano rentável para manter Neymar. Só que é a exceção. A regra é gastar, gastar e gastar para só depois pensar em como pagar.



