Blog do Serginho
Diretor de redação da revista Placar, Sérgio Xavier não poupa palavras para discutir os principais assuntos do mundo futebolÃstico
O Vasco e os salários
O jogador de futebol profissional brasileiro é um privilegiado. Ganha bem, o mercado nacional deu uma enlouquecida. Nos grandes clubes, um jogador mediano recebe 50 mil reais mensais e ainda reclama. O melhorzinho ganha mais de 100, o craque leva mais de 200 mil reais todo santo mês.
Nada contra, sem inveja. Podemos até falar da desigualdade social, dos milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria, mas vamos simplificar a discussão e ficar apenas na lógica econômica. Existe um show e existem os artistas. Se o show é muito rentável, os artistas podem ganhar muito bem.
Só que o futebol brasileiro não percebeu que o show não é tão milionário assim. Os clubes estão pagando aos jogadores o que não tem. Estão todos endividados. Alguns estão se complicando mais com a gastança. O Flamengo nem sabe como pagar Ronaldinho Gaúcho. O Vasco está atrasando salários. A derrota na estreia da Libertadores para o Nacional do Uruguai em casa não é coincidência. Os jogadores certamente não fizeram corpo mole para protestar. Só que aquele clima mágico do ano passado que rendeu o tÃtulo da Copa do Brasil e o vice no Brasileiro sumiu. ]
É provável que os salários tenham relação direta com isso. Ninguém gosta de ser enganado pelo patrão, mesmo quem ganha bem e tem de onde tirar o leitinho das crianças. O futebol brasileiro precisa aprender o básico. Antes de pensar em grandes esquadrões e jogadas de marketing, é preciso cuidar da folha de pagamento. Salário atrasado pode liquidar com uma equipe.
Traduzam a Libertadores
Todo o ano é a mesma coisa. Ah, vai dar Brasil na Libertadores! Nossos times são muito melhores, pagamos os melhores salários, um clube brasileiro vai ser campeão da Libertadores, com toda a certeza.
No papel, o Brasil já entra campeão. Ou o Santos de Neymar, ou o Corinthians campeão Brasileiro, talvez o Internacional que ficou mais forte com a permanência de D’Alessandro, ou o Vasco campeão da Copa do Brasil, por que não o fortÃssimo Fluminense, quem sabe até o Flamengo. Sim, o temÃvel Boca Júniors também participa este ano e até está no grupo do Fluminense. Só que o futebol argentino está em crise, o grande Boca virou boquinha.
Na teoria é assim, Brasil nas cabeças. Na prática, tudo é mais complicado. Inter e Flamengo suaram sangue para passar da fase preliminar. A estreia do Fluminense foi assustadora, o time quase se complicou contra o Arsenal genérico da Argentina.
É incrÃvel, mas entra ano e sai ano e continuamos com uma dificuldade de entender uma competição que fala em espanhol. Confundimos virilidade com violência, trocamos seriedade por um nervosismo que desemboca em pavor. Sempre tem um jogador brasileiro expulso nas partidas. A juizada deixa mesmo o jogo o correr, não distribui cartões amarelos em entradas mais duras. Só que não tolera malandragem e reclamação. Justamente o que os jogadores brasileiros costumam fazer. O Brasil poderia ter muito mais tÃtulos nessa que é a mais importante competição do continente. Bastaria entender melhor como ela funciona.
O Gladiador voltou
Kléber, o Gladiador, é um jogador emblemático. Ele consegue reunir em um só atleta uma série de comportamentos existentes no futebol brasileiro. Começemos pelos positivos, Kléber é um ótimo jogador. Sabe driblar, tem velocidade, conhece o caminho do gol. Não é um craque, mas sabe jogar. Paramos por aqui. Kléber, que já passou pelo São Paulo, pelo Cruzeiro e pelo Palmeiras, está com um contrato de cinco anos no Grêmio. Prometeu encerrar a carreira em Porto Alegre, é boa a chance de não cumprir a promessa.
Basicamente, porque não é de cumprir contratos. O atacante costuma abandonar o barco em meio à s confusões mais variadas. Foi assim na Ucrânia, no Palmeiras e no Cruzeiro. Kléber jogou o Grenal no domingo e não fez muito. O Grêmio titular apenas empatou com os reservas do Inter. Kléber já não recebe os mesmo aplausos concedidos quando foi apresentado na sua chegada. Torcedores adoram jogadores guerreiros que brigam pelas cores de seu clube. Kléber começa como Ãdolo, mas logo se divorcia dessa imagem. Parece que se desinteressa pelo emprego. Foi assim no Palmeiras, quando percebeu que seu companheiro ValdÃvia ganhava mais do que ele no clube. O Flamengo tentou contratá-lo, depois disso nunca foi o mesmo.
Kléber não é muito diferente da boleirada brasileira. O mercado está comprador, os clubes acham que estão ricos e pagam caro para os jogadores. A moçada percebe que a vida é fácil, que é sempre rentável trocar de clube ganhando mais. Para completar, Kléber se envolveu em uma polêmica conjugal. Sua mulher foi a polÃcia se queixar de uma agressão no fim de semana. Nem precisava, o Gladiador não precisa de ajuda para armar suas próprias confusões.
O torcedor cabreiro
É uma sensação estranha, a felicidade anda rara no nosso futebol. A maioria das torcidas está, no mÃnimo, desconfiada de seus times. Poucos são os realmente satisfeitos nesse inÃcio de temporada. Alguns, aliás, já estão até preocupados. O santista é um deles. Passou boa parte do ano de 2011 com sorriso de orelha a orelha. Até o jogo contra o Barcelona, é claro.
O Santos começou devagar, quase parando. O time titular fez a sua segunda partida, e nada de vitória. Pior, derrota para o Palmeiras, no papel, uma equipe inferior. O próprio torcedor do Palmeiras não consegue se empolgar com seu time, sabe que está faltando alguma coisa.
O corintiano, que festejava seu 100% no Paulistão, baixou a crista no domingo. Empate melancólico com o Bragantino no Pacaembu. E o rubro-negro? Até passou pela pré-Libertadores, mas o time não deslancha. Empate no clássico do domingo contra o Botafogo. O cruzeirense sabe que há algo errado com a equipe, perder para o Guarani no Mineiro nunca é boa coisa. Assim como o gremista, que conseguiu não vencer o time reserva do Internacional no primeiro clássico do Gauchão.
O Vasco até ganhou no Carioca, mas o torcedor sabe que tem salário atrasado, que tem crise, que as coisas não vão bem. Há exceções, ainda bem. O Fluminense deu pinta de começar bem a temporada, assim como o São Paulo, que nesse domingo venceu a Ponte Preta em Campinas. E o Coritiba iniciou 2012 da mesma forma que largou em 2011, vencendo todo mundo.
Mas, no geral, a felicidade é artigo raro, coisa de inÃcio de temporada. Tem tempo, daqui a pouco as coisas melhoram, pelo menos para algumas das grandes torcidas brasileiras.
O cardápio estadual
Esqueça a tabela de classificação. Isso tem uma importância muito reduzida a essa altura do campeonato. Os estaduais, todos eles, apresentam uma fórmula que é um convite ao sono nas primeiras rodadas. Eles começam a esquentar, de verdade, lá pelo final de março, quando os jogos passam a ser decisivos. Seu time pode perder a vontade agora que ainda terá boas chances de se classificar nas fases seguintes. Isso vale para o Gaúcho, para o Paranaense, para o Paulista, para o Baiano, para todos.
Mas vale a pena ficar de olho na tabela de jogos, porque tem coisa boa no fim de semana. Tem campeonato mineiro começando, com um Atlético x Boa, aquele time sensação da Série B. Tem clássico em Pernambuco no domingo, um Sport x Náutico. No Paraná, a curiosidade vem no sábado, com um Coritiba x Arapongas. Será que o Coxa repetirá a campanha quase 100% do ano passado? No Gauchão um quase clássico em Caxias, Juventude x Grêmio já decidiu tÃtulo no passado.
O Campeonato Carioca não oferece clássicos ainda, só que existe a curiosidade sobretudo quanto ao Fluminense, que aos poucos vai colocando suas estrelas para jogar. No Paulistão, o melhor do cardápio parece ser o jogo do Morumbi. O São Paulo recebe o São Caetano com a liderança para defender. Lucas voltou a jogar bola, o tricolor não para de fazer gols. Tem diversão boa no fim de semana.



