Se a Copa das Confederações serve como um vestibular para a Copa do Mundo, a África do Sul sofreu para passar pelo teste, se é que conseguiu. Primeiro, os pontos positivos -- o país é lindo. Por todos os lados há bichos selvagens para se ver, de leões a pinguins, passando por elefantes, tubarões e rinocerontes, entre muitos outros, nas muitas reservas florestais e no mar. Na região do Cabo, há vinho de primeira e uma das paisagens mais lindas do mundo. Pelos quatro cantos, as rodovias são impecáveis e dão de dez a zero na maioria das estradas brasileiras. Mesmo em vias secundarias, dá para rodar por elas por dezenas de quilômetros sem encontrar um único buraco. OK, aqui dirige-se a inglesa -- circulando pela faixa da esquerda, com o volante do lado direito do carro e fazendo os engates das marchas com a mão esquerda. É chato (e foi por isso que os norte-americanos, franceses e alemães inventaram um jeito de transferi-lo para o outro lado). Mas, depois de alguns quilômetros e muita atenção, dá até para se acostumar com esse jeito esquisito de guiar. Para completar, os estádios sul africanos construídos para o Campeonato Mundial são bonitos, modernos e confortáveis. OK, o zumbido irritante das vuvuzelas deixa qualquer estádio sul africano, semelhante a uma colmeia. Como faz parte da cultura local e da festa, vale um desconto.
O problema dos sul-africanos é maior fora de campo e é aaá que as coisas se complicam. Por aqui, circular pelas cidades em transporte publico, definitivamente, não é fácil. Notícia ruim, quando se sabe que nove entre dez torcedores não circulará pela África do Sul de automóvel. Apesar das promessas, não há ônibus circulando pelas grandes metrópoles, como Joanesburgo e a Cidade do Cabo. As obras de corredores de ônibus e do metrô, que ligará a maior cidade sul-africana a Pretoria, passando pelo aeroporto, estão bastante atrasadas. Para que fiquem prontas os operários estão trabalhando sete dias por semana. Apesar da pressão dos donos de vans -- que hoje monopolizam o transporte de quem não tem carro -- até junho do ano que vem, quando a bola rolar no primeiro jogo da Copa, os sistemas deverão estar inaugurados. Será que vão funcionar direito?
Também não deverá ser nada fácil resolver o problema da violência urbana. Maior metrópole do país, Joanesburgo é uma cidade ultra perigosa. Pretoria e o subúrbio de Soweto também são inseguras. Em menor grau, a cidade do Cabo, Durban, Rustenburg e Bloemfontein também tem lá seus problemas de criminalidade. E elas sediarão 48 das 64 partidas da Copa. O pior território local para ter problemas fica situado nas áreas centrais de Joanesburgo, onde coquetel de violência é explosivo -- tem batedor de carteira, assaltante à mão armada, seqüestradores ... E, como se não bastassem seus próprios delinquentes, a África do Sul ainda pena com bandidos que vem do Zimbábue, do Moçambique e da Nigéria. Para azar dos torcedores, alguns dos principais estádios ficam em pontos negros.
O Ellis Park, onde o Brasil enfrentou os Estados Unidos, pela Copa das Confederações, e que receberá sete partidas do Campeonato Mundial, por exemplo, fica em Hillbrow. Ali já foi o epicentro da vida boemia da cidade. Andar ali de noite por ali é suicídio. Hoje, mesmo à luz do dia, só um turista maluco se arrisca a caminhar pelas suas calçadas. Na década passada, nada menos do que 59 mil crimes foram cometidos na região, algo como 500 por mês. Segundo as estatísticas oficiais, no ano passado foram 107 assassinatos, 247 estupros, 2327 roubos a mão armada e 126 ataques armados a carros. Se no passado havia bares, pistas de dança e vida boemia, hoje em dia, nem precisa escurecer para que o bairro seja dominado por quadrilhas e delinquentes. A Park Station, de onde saem trens e ônibus para as outras cidades, fica logo ali. Portanto, este ponto por onde também circularão milhares de torcedores, hoje em dia, é para lá de perigoso. Soweto também é considerado área de risco. Idem para o trem de subúrbio que leva a Pretoria, arriscadíssimo.
Os dirigentes sul-africanos prometem jogar duro contra tanta violência. Dizem que colocarão a polícia (e até o exercito) para ocupar e tomar conta das ruas no ano que vem, mas nem os sul-africanos acreditam em milagre. `O crime tomou conta desta cidade de tal maneira que não recomendo a nenhum dos meus clientes que alguém fique dando bobeira de madrugada`, me disse Maria, moçambicana, dona de um ótimo restaurante português, que há anos está radicada em Joahanesburgo. Ela conta que mesmo quem mora na cidade enfrenta problemas. `No final do ano passado, Paulo, um dos meus funcionários -- que é negro -- foi sequestrado, apanhou muito e só não passou por bocados piores porque os bandidos o soltaram, com medo de um carro de policia que passava por perto.` Assim, em Joanesburgo a grande atração é ir as compras em shoppings centers. Mas, mesmo neste ambiente melhor protegido, sacar dinheiro em um caixa eletrônico pode ser pretexto para que algum gatuno entre em ação (aconteceu com um jornalista amigo meu). Parece até São Paulo. Só aqui a violência aqui na África é mais descontrolada (se é que é possível). Danny Jordan, o presidente do Comitê Organizador jura que isso vai mudar. Segundo ele, 190 mil policiais e 100 000 reservistas patrulharão as ruas, com ajuda de helicópteros e centenas de viaturas.
O esquema poderia ter sido testado durante a Copa das Confederações, mas Joanesburgo e as outras cidades continuaram a ser perigosas para andar. Se isso mudar no ano que vem, a organização da África do Sul passará de ano. Se não levara bomba e, para os que quiserem ver os jogos de perto, só restará vir para cá em pacotes organizados. Mesmo assim, recomendo que apareçam por aqui muito bem agasalhados. Nesta época do ano, aqui faz um frio de rachar, principalmente quando os jogos são à noite. E em julho, quando acontecerá a grande final da Copa de 2010 as noites serão ainda mais geladas. Os sul-africanos querem fazer uma grande festa. Mas, precisarão melhorar muito para chegar lá.
